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Atualizado em 20 DE outubro DE 2017 ás 17:39

Por mais mulheres na Ciência

A falta de representatividade da mulher, em especial a negra, na carreira científica ainda é está longe da igualdade

POR GIOVANNA HEMERLY e REBECA ALMEIDA*
gihe296@gmail.com; rasrebeca@gmail.com

Dados divulgados pela pesquisa realizada pelo Diretório de Grupos de Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em 2013, apontam que o número de mulheres cientistas no Brasil é praticamente o mesmo que o de homens. Mas, para a pesquisadora Jaqueline Dourado, que desenvolveu um estudo sobre a presença de mulheres nos cursos de engenharia da UFBA, esse dado é falacioso quando analisados os campos de estudos em separados.

“Guarde sua vassoura que sou uma doutora”: mulheres negras na área de ciências exatas relataram desafios na trajetória acadêmica no Congresso UFBA | Foto: Giovanna Hemerly.

A afirmação da pesquisadora foi feita durante o Congresso de Pesquisa, Ensino e Extensão da UFBA, realizado de 16 a 18 deste mês, nas unidades da universidade. Durante o último dia do evento, o espaço da reitoria foi reservado para debater a presença feminina na Ciência. Pela manhã, as pesquisadoras Jaqueline Dourado, Katemari Rosa, o presidente interino da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB), Lázaro Cunha, e a secretaria de Políticas Para Mulheres da Bahia (SPM), Julieta Palmeira, discutiram políticas públicas para inclusão e permanência das mulheres nas Ciência. Pela tarde as cientistas Bárbara PinheiroSimone de Moraes narraram suas trajetórias e lutas para seguir na carreira acadêmica enquanto mulheres negras.

Para compreender melhor os impactos dessa diferença de gênero nas áreas de pesquisa é preciso retroceder e compreender o papel da Ciência na sociedade atual. Para a física e professora da UFBA, Katemari Rosa, “o conhecimento científico têm sido fundamental nas questões econômicas, nos espaços de poder e de decisões tomadas na nossa sociedade”, daí a necessidade de se pensar políticas públicas para a democratização da Ciência. A inclusão, não só de mulheres, mas também de negros e outras minorias sociais nos espaços de conhecimento.

A pesquisadora Jaqueline Dourado acredita que ainda há uma “divisão de trabalho” na qual as mulheres são maioria nas Ciências Humanas e Biológicas e minoria em áreas de Ciências Exatas, Engenharias “tradicionais” e computação. “As mulheres estão sub representadas em áreas importantes para o desenvolvimento econômico do país”, afirmou.

Ainda segundo Dourado, não é apenas uma questão de afinidade, mas de construções sociais, uma vez que, desde jovens, as mulheres são direcionadas para atividades ditas “femininas”, relacionadas com o cuidado. Já os homens tendem a ser direcionados para áreas de comando, o que se reflete mais tarde, no mercado de trabalho. Mesmo quando as mulheres entram em áreas majoritariamente masculinas, ainda há uma separação, dentro da própria Engenharia, exemplificou a professora. “As mulheres vão para as áreas consideradas mais femininas, que possuem menor remuneração e, consequentemente, menor prestígio social”, ressaltou.

Representatividade da mulher negra nas Exatas – Segundo a doutora em Ensino de Química,  Bárbara Pinheiro, ainda faltam mulheres nas ciências exatas. Por este motivo, uma mesa de doutoras nessa área seria uma forma de trazer visibilidade para essa causa. “Se todas as áreas acadêmicas possuem uma carência de representatividade negra, e fundamentalmente de mulheres negras, nas ciências exatas isso é ainda mais gritante”, relatou Bárbara.

Por isso, são grandes os desafios que mulheres negras enfrentam para vencer o preconceito estrutural e institucional e chegar à pós-graduação. “Só pelo fato de observarmos a imagem de uma mulher negra em um pôster com um ‘Dr.’ na frente do nome, a gente já imagina o grau de dificuldade, de esforço e de vitória envolvido na história daquela pessoa. Porque ser mulher negra nessa sociedade, de fato, é enfrentar um leão por dia, é guerrear a cada segundo, é respirar um preconceito estrutural e institucional a cada momento”, desabafou.

Preconceito estrutural e institucional - A doutora Simone Moraes, que além de ter sido a única mulher negra nas suas turmas de mestrado e doutorado, que também não tinham negros, denunciou o preconceito presente em instituições de ensino. Ela conta que, por medo de sofrer retaliações, muitas vítimas acabam silenciadas. “A própria instituição tem esse ‘cooperativismo’ que blinda os professores. Então muitas vezes as pessoas sofrem situações de racismo, mas por medo das represálias que vão sofrer, não denunciam”, afirmou Simone.

Bárbara Carine apontou outra possibilidade para professoras e professores articular as discussões étnico-raciais e de gênero com os assuntos trabalhados em sala de aula: “A gente precisa utilizar mecanismos internos de inclusão sistêmica. Eu trabalho com uma disciplina que não prevê discussões étnico-raciais nela, mas eu incluo”, explicou.

Mesa debate políticas públicas de inclusão e permanência de mulheres na Ciência | Fotos: Rebeca Almeida

Investimentos e políticas públicas - A partir do que foi apresentado em ambas as mesas, é necessário investir em políticas de inclusão e democratização da Ciência. Além disso é preciso colocar em prática estratégias eficientes de combate ao sexismo e ao racismo.

De acordo com a secretária da SPM, Julieta Palmeira, em situações de crise econômica como a atual do Brasil, as áreas mais afetadas são sempre as mais vulneráveis, assim como as minorias de gênero e raça. Dessa forma preciso fortalecer articulações para manter e criar políticas de inclusão e permanência. “Estamos em um contexto de ‘queda livre’ de políticas relacionadas ao investimento em conhecimento e pesquisa no país. Isso atinge diretamente a presença das mulheres nas ciências”, ressaltou. Ela afirma ainda que é preciso pensar em “políticas estruturantes” para a inclusão das mulheres. Para ela, um exemplo de política estruturante em relação à desigualdade de gênero seria a criação de uma disciplina, voltada para esse debate, nas escolas e nas universidades.

Para Katemari Rosa, uma forma de lutar contra o racismo e o preconceito estrutural e institucional é criar e fortalecer redes para cooperação mútua, na qual pesquisadores e pesquisadoras negras possam auxiliar e os trabalhos uns dos outros. Reforçando uma prática de desenvolvimento coletivo, como ocorria em comunidades quilombolas. “Essa cultura de quilombo é muito importante para o nosso processo de resistência dentro do espaço acadêmico”, finalizou.

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*Estudantes do curso de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da UFBA e repórteres da Agência de Notícias em CT&I – Ciência e Cultura

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