A difícil tarefa de conciliar maternidade, responsabilidade, adolescência e acolhimento
Por: Michel Cabral e Ricardo Barreto
A descoberta de uma gravidez é sempre um misto de emoções e questionamentos, algo que as mulheres que se tornaram mães na adolescência experimentaram e ainda experimentam com certa frequência. Nesses casos as adolescentes são recriminadas pelo simples fato de terem engravidado, como conta Laiane Soledade, confeiteira autônoma, que se tornou mãe solo aos 15 anos: “as maiores dificuldades durante a gravidez foram as questões de gerar uma nova vida, os olhares, as críticas e o isolamento das pessoas, pois elas se afastaram muito de mim”, explica a confeiteira.
A família entra com o papel de instruir os adolescentes sobre os riscos de uma gravidez indesejável e modos de contracepção, tendo em vista que a maior parte dos adolescentes já iniciaram a sua vida sexual. A família também é importante no papel de apoio emocional em caso de uma gravidez na adolescência, esse apoio parental nessas horas são fundamentais para que as adolescentes se sintam acolhidas, Laiane Soledade declara: “A pessoa que mais me apoiou foi minha mãe, [...] ela é uma pessoa muito rígida, mas ela foi muito acolhedora, ela foi o meu suporte mesmo triste, pois ela não esperava. Engravidei aos 14 e dei à luz aos 15 anos, ela foi a pessoa que mais me apoiou e minha irmã também” – mostrando que o apoio familiar foi um fator determinante e encorajador na vida de Laiane.
Mianga Gavião, conselheira tutelar, afirma que existe um impacto na vida dos pais e mães adolescentes: “A gravidez na adolescência é uma situação que a gente sabe sim que tem impacto, seja na saúde mental, na questão dos estudos, na socialização, essa gravidez vai trazer impacto na vida daquele e daquela adolescente”, declara a conselheira.
Para além das preocupações de como as famílias irão reagir a tal notícia, existem fatores que implicam ainda mais a vida dessas adolescentes, pois elas terão que aprender a conciliar estudos, trabalho, o cuidado de um recém-nascido e a sociedade que os cercam. Para Laiane não foi diferente, ela conta que teve sim dificuldades nos estudos, nas às vezes em que deixou de trabalhar devido horário do trabalho colidir com o horário de saída da creche, as falas maldosas e maliciosas de familiares e as amizades que se afastaram.
Laiane explica que obteve uma “assistência” por parte da família paterna da filha: “Eu tive suporte da família do pai, tive, mas era um suporte muito à distância, é, fizeram o mínimo possível e se pudesse, eles tivessem, eles me colocaram numa casinha e me esconderiam do mundo, porque eles tiveram muita vergonha”, declara.
E por essa assistência ser distante – ocorreu a ausência de um pai à criança, algo que Laiane frisa: “A família paterna, poderia ter colaborado mais, não só a parte financeira, que eles negligenciaram, mas a questão da presença, minha filha sente muita falta do pai, de ter vivenciado o dia dos pais com o pai, mas ele não quis, aniversários que ele nunca participou, e de estar com ele e compartilhar coisas simples como conversar, aprender junto coisas com a família paterna, eu percebo que a ausência da presença paterna, pesou muito para ela”.
Uma pesquisa realizada pela UMANE no ano de 2025 mostra que as taxas em mais de 5,5 mil municípios expôs um quadro considerado pelos pesquisadores de “profunda desigualdade”. Com a região Norte apresentando o índice que chega a 77,1 nascimentos por mil meninas de 15 a 19 anos, o dobro do observado na região Sul (35 por mil).
Existe uma preocupação com os dados revelados pela pesquisa, pois muitos dos bebês nascidos de mães adolescentes são frutos de abuso sexual de vulnerável como afirma a conselheira: “Quando falamos de casos de gravidez na adolescência em que as mães são menores de 14 anos, vai ser crime. Independente do consentimento da adolescente, do adolescente ou não, todas as vezes que for com menor de 14 anos é configurado como crime”, explica Mianga.
Laiane Soledade afirma não se arrepender de ter sido mãe na adolescência, mas que esse adiantamento interferiu em fatores como estudos, e o julgamento por ser mãe e adolescente: “A questão de estar com uma criança, e de ser mãe adolescente não me faz adulta. Eu era literalmente uma criança com outra criança, é difícil sim ter que se organizar, ser mãe, ser mulher, estudar, mas não desistir e o que vale a pena”, declara a confeiteira.
Laiane traz luz ao passado durante a entrevista e muito emocionada declara que: “olhar para o passado hoje faz eu refletir sobre tudo e ver que sim, é uma felicidade ser mãe, mas eu poderia ter esperado, vivenciado outras coisas, ter conhecido outros ambientes, estudado mais e hoje eu olho para as pessoas jovens, grávidas, as meninas e vejo que ali não é o fim”, conta.
A confeiteira declara também uma mensagem a todas pessoas que gestam, expondo que as dificuldades são o combustível para a superação: “o início é muito difícil, as pessoas vão criticar muito, mas vai haver uma força que não é de você. Quando você vê que alguém tão pequeno, tão frágil precisa de você, você tira força da onde você não imagina que teria. Vê os olhares de crítica vai doer, mas você vai superar, as palavras duras e rígidas que você é inconsequente, que você é irresponsável, que você vai ser uma pessoa promíscua, você vai superar. É uma alegria, ver sua filha, seu bebê crescendo, se tornando uma boa pessoa, recompensar muito no final”, explica Laiane fazendo referência a sua história de vida.
Histórias como a de Laiane Soledade traz luz a uma questão séria, como os olhares de julgamento, as palavras duras e a falta de apoio da sociedade e dos familiares impacto negativamente a vida dessas mães adolescentes. Mas como a resiliência muda a vida das mães e dos filhos, a exemplo da filha de Laiane, que atualmente tem 22 anos de idade e cursa História na UFBA e também ajuda a mãe na venda de bolos e geladinhos gourmet no pátio da Biblioteca Central da UFBA no campus Ondina.