Em meio a cobranças, expectativas e exaustão, muitas mães enfrentam um sofrimento que ainda é pouco compreendido
Sophia de Holanda, Andressa Machado e Nauan Sacramento
O pós-parto é descrito como um período de encantamento, mas a realidade de muitas mulheres é outra. Longas noites acordadas, uma avalanche de mudanças no corpo e uma pressão silenciosa para dar conta de tudo. No meio desse redemoinho, sentimentos difíceis e muitas vezes incompreendidos surgem sem aviso. Segundo estudos da Fiocruz, estima-se que mais de 25% das mães brasileiras tenham depressão pós-parto (DPP), uma condição de tristeza profunda e desgaste mental que pode acompanhar o puerpério.
Para entender por que tantas mães se sentem assim, e por que tantas escondem esse sentimento, conversamos com Marina Marinho, psicóloga e especialista em atenção hospitalar. Ela afirma que a ambivalência faz parte do processo de maternidade: “Uma mãe pode muito bem amar seu filho, gostar dele, querer ser mãe e estar profundamente entristecida por diversos motivos, por estar sobrecarregada”.
Quando o tabu silencia a dor materna, os problemas se intensificam e o acesso à ajuda é dificultado, já que as mulheres sentem vergonha e culpa por não se sentirem felizes. O sofrimento feminino é frequentemente rodeado por estigmas, e na DPP, o cenário não é diferente: a maternidade é culturalmente idealizada por construções sociais e pela mídia, que retratam a figura da mãe como eternamente disponível, feliz e amorosa, não só para seus filhos, mas também para o parceiro, que muita vezes desfruta da possibilidade de se distanciar das obrigações afetivas com a criança.
A DPP afeta mulheres de todas as classes sociais, mas o risco e a intensidade do sofrimento são acentuados em contextos de vulnerabilidade social e econômica. Segundo dados coletados por uma pesquisa do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), uma em cada quatro mães brasileiras vivendo na pobreza enfrenta depressão pós-parto no primeiro ano após o nascimento da criança. Nesses casos, a sobrecarga materna, já intensa, é agravada pela falta de recursos básicos, moradia instável, insegurança alimentar, baixa escolaridade e acesso limitado a serviços de saúde de qualidade.
A ausência de uma rede de apoio formal ou informal robusta, seja por distância familiar, precarização do trabalho ou falta de políticas públicas efetivas, como creches e licença-maternidade, torna a experiência do puerpério ainda mais solitária e exaustiva. Mulheres que vivenciam o sexismo e o racismo cotidianamente não conseguem exercer plenamente o seu direito à saúde mental por estarem em situação desfavorável, para elas, a luta pela sobrevivência frequentemente se sobrepõe à possibilidade do auto-cuidado.
Assim, a imposição gera pressão e frustração sobre mulheres que já são normalmente sobrecarregadas, por isso, Marinho destaca o fortalecimento de uma rede de apoio para amenizar os impactos na saúde mental e, consequentemente, reduzir as possibilidades de desenvolvimento de uma depressão pós-parto ao evitar o isolamento e o cansaço da mãe, identificar os sintomas depressivos precocemente e acolher os sentimentos dela. Essa rede envolve familiares, amigos e profissionais de saúde atentos às condições do puerpério.
Apesar de fundamental, a rede de apoio não é o único recurso necessário para reduzir as chances de desenvolvimento da depressão pós-parto. O cuidado não se limita ao âmbito individual ou familiar; ele também depende do funcionamento do sistema público de saúde. A falta de recursos no SUS dificulta o acesso ao acompanhamento durante a gestação e, principalmente, no pós-parto, momentos fundamentais para identificar riscos emocionais e oferecer suporte adequado às mulheres.
Segundo pesquisas do Instituto de Estudos de Políticas de Saúde, no Brasil, em 2020, apenas 67,8% das mulheres negras tiveram acesso a um pré-natal adequado, enquanto entre mulheres brancas esse percentual foi de 81,2%, evidenciando desigualdades que aumentam ainda mais a vulnerabilidade no puerpério. Marina destaca que fortalecer a atenção primária do SUS é um passo crucial: equipes capacitadas, estrutura adequada e acompanhamento contínuo podem transformar a jornada materna.
A psicóloga comenta que o cenário da Maternidade Climério de Oliveira, onde atua, é uma exceção positiva, já que a unidade dispõe de uma equipe ampliada para acolher mulheres em sofrimento. Experiências como a da Maternidade Climério de Oliveira revelam que é possível oferecer cuidado digno às mães, mas também expõem o quanto isso ainda é raro no país. O que deveria ser regra no SUS permanece como privilégio de poucos serviços, a consequência é uma oferta de suporte desigual entre os serviços de saúde públicos.
Quando não diagnosticada e acompanhada adequadamente, a depressão pós-parto pode comprometer profundamente o vínculo entre mãe e bebê e provocar impactos duradouros na saúde mental e física de ambos. Ainda assim, o sofrimento materno segue sendo frequentemente tratado como uma falha individual, o que reforça estigmas e contribui para a patologização de experiências atravessadas por desigualdades sociais, raciais e econômicas. Para Marina Marinho, enfrentar a depressão pós-parto exige ir além da identificação dos sintomas clínicos, reconhecendo também os sinais de um problema sistêmico, expresso na recorrência de mulheres que vivem o puerpério em condições de desamparo.
Segundo ela, despatologizar esse sofrimento não significa negar a necessidade de cuidado em saúde mental, mas ampliar o olhar sobre os contextos que produzem o adoecimento. Desestigmatizar, por sua vez, implica romper com narrativas idealizadas da maternidade e reconhecer a pluralidade de experiências que marcam cada gestação. Sem esse deslocamento de perspectiva, o sofrimento materno segue sendo vivido de forma isolada, silenciada e invisibilizada.