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Atualizado em 26 DE dezembro DE 2025 ás 14:15

Entre o abrigo e o esquecimento: adolescentes que envelhecem no sistema de acolhimento

Ao completar 18 anos, jovens que não foram adotados deixam casas de acolhimento e passam a enfrentar a invisibilidade institucional

Andressa Machado e Melissa Carlos

A baiana Adriana Quintiliano cresceu acreditando que o Lar da Criança, instituição de acolhimento em Salvador, era sua casa. Chegou lá com apenas três dias de vida e foi criada sob a rotina e o cuidado de Dona Dulce, fundadora do abrigo. Por muitos anos, sua infância foi marcada por quartos compartilhados, rotinas coletivas e festas comunitárias que faziam parte do calendário do lar. Desde cedo, aprendeu a dividir espaços, seguir horários e conviver com outras crianças que, como ela, não tinham para onde voltar. Aos 14 anos, chegou a viver a possibilidade de adoção, uma chance rara para adolescentes, mas acabou sendo devolvida pela família que havia iniciado o processo.

Aos 15 anos, Adriana viveu uma experiência que costuma ser idealizada por muitas meninas: a festa de debutante. No entanto, para ela, o momento era atravessado por outras preocupações. “Eu tive a oportunidade de ter a minha festa de 15 anos, mas a minha preocupação maior era que de 15 para 18 é um pulo. E aí, o que é que eu vou fazer da vida? Com o que que eu vou trabalhar? Quais vão ser os medos? Como é que eu vou enfrentar os medos? Como é que eu vou desafiar o mundo?”, desabafa.

A história de Adriana se assemelha à de outros jovens que cresceram em instituições de acolhimento. Dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), do Conselho Nacional de Justiça, revelam que, em 2025, mais de 35 mil crianças e adolescentes vivem em instituições de acolhimento no Brasil.

Na Região Metropolitana de Curitiba, Adrielle Claraliz chegou ao abrigo já na adolescência e enfrentou desafios semelhantes, ainda que por caminhos diferentes. Ao contrário de Adriana, Adrielle chegou ao acolhimento sabendo que as chances de adoção eram mínimas: “Nossa, ninguém imaginava adotar garotas de 14, 13, 12 anos. Então, eu sabia que estava lá para adoção, mas não tinha esperança, porque eu sabia que não ia acontecer.”.

Dados do painel de estatísticas do SNA indicam que grande parte das crianças acolhidas já estão na adolescência, fase em que as chances de adoção diminuem. A diferença entre o perfil das crianças acolhidas e o perfil buscado pelos pretendentes ajuda a explicar a dificuldade da adoção de adolescentes. Ainda de acordo com o SNA, a maioria das famílias habilitadas manifesta preferência por crianças pequenas, sem irmãos e sem problemas de saúde.

Para a conselheira tutelar Mianga Gavião, esse cenário está diretamente relacionado aos tabus que ainda cercam a adoção tardia. “Por muitas vezes, essas crianças que entram no fim da infância permanecem no abrigo até os 18 anos”, explica.

Com a maioridade, Adriana entrou em uma nova fase: Saiu do lar o qual habitou por grande parte da vida e passou a morar em uma casa de acolhimento para jovens que haviam completado a maioridade. “A gente ficava nessa casa e quem pagava o aluguel era o Lar da Criança. Até que, depois, cada um seguisse o seu destino.”, conta.

Em Salvador, a Secretaria responsável por esses abrigos de adulto é a SEMPRE (Secretaria Municipal de Promoção Social, Combate à Pobreza, Esportes e Lazer), mesma encarregada dos abrigos de crianças e adolescentes, de forma que o acompanhamento desses jovens não é rompido com a mudança de moradia. No entanto, essa transição não significa autonomia plena nem garantia de inserção social. O acesso à moradia provisória não é necessariamente conjunto à vaga de trabalho ou formação profissional.

Adrielle conta que pensar no futuro, sabendo das dificuldades de inserção no mercado, era uma das maiores causas de seu sofrimento enquanto adolescente. “Aos 16 anos, eu já comecei a trabalhar, porque eu sabia que quando chegasse aos 18 eu não teria para onde fugir. Então eu não tive a oportunidade naquele tempo de me dedicar aos estudos.”. Na região metropolitana de Curitiba a integração entre casas de acolhimento de diferentes faixas etárias não é sistematizada, como em Salvador, e sim através de entidades específicas, como as repúblicas. A quantidade de vagas nesses espaços é um problema social invisibilizado em todo o país, recebendo pouca atenção governamental e midiática. De acordo com dados do Censo SUAS de 2023, há 368 jovens entre 18 e 21 anos vivendo em abrigos para crianças e adolescentes. Mas a maior parte dos egressos desses lares tem o paradeiro desconhecido pelo estado após a maioridade — segundo pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada deste ano, isso ocorre com 80% do grupo.

O baixo quantitativo de vagas para acolhimento em Salvador ocorre principalmente nos espaços para jovens e adolescentes, que ficam à mercê de barreiras estruturais colocadas pelo estado. “Para criança a gente não percebe tanto, mas quando a gente fala de adolescentes e de adultos, a gente vê que mesmo com toda a legislação que os ampara, ainda há adolescentes em situação de rua porque não tem vagas suficientes nos abrigos”, explica Mianga Gavião.

Dia 25 de maio é considerado nacionalmente o Dia da Adoção, quando a mídia promove campanhas de incentivo. A falta de atenção para a causa nos outros 364 dias, no entanto, é responsável pela continuidade de uma fraca estrutura de apoio para esses jovens. Adriana fala em urgência de projetos sociais voltados à experiência laboral e de capacitação, para além do acolhimento: “As repúblicas voltadas para jovens que saíram de abrigo deveriam servir para eles não ter o desamparo, mas também para ter o primeiro emprego. Porque os jovens saem do abrigo desnorteados, muitas vezes sem a base que eu tive, aí entram na criminalidade, E as meninas quando não na criminalidade, na prostituição”.

Histórias como as de Adriana e Adrielle compõem o Brasil pouco falado das pessoas que cresceram em abrigos ou orfanatos e nunca foram adotadas. Um país que, apesar de avanços legais, ainda repete padrões antigos, herança de séculos em que as crianças pobres e órfãs eram vistas como risco ou incômodo social, e não como indivíduos em desenvolvimento.

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