A maternidade solo está esgotando as mulheres, mas o país já parece acostumado com isso.
Sophia de Holanda
“Eu cresci só com minha mãe e minha irmã, até uns 13 anos meu pai até aparecia às vezes, mas depois ele sumiu” relata Julia Fulco, estudante de psicologia de 19 anos, que aprendeu ainda pequena que não poderia contar com a presença do pai na sua vida. A história dela se assemelha com a de milhões de brasileiros que enfrentam o abandono paterno, uma realidade que revela as marcas da desigualdade de gênero no Brasil.
Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), mais de 5,5 milhões de crianças e adolescentes não têm o nome do pai no registro de nascimento. Mas o número real de crianças que convivem com o abandono emocional e material é ainda maior.
Para Julia, a solução foi aprender a conviver com a ausência: “Hoje em dia eu aceito mais, tenho que resolver qualquer vestígio disso sozinha”. A mãe dela é uma das mais de 11 milhões de mães solo no Brasil, de acordo com pesquisas recentes da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Números e relatos como esses revelam a naturalidade que envolve esse fenômeno, responsável por cicatrizes profundas nas mães e filhos que dão rosto aos dados.
Para a psicóloga Thaís Carvalho, o abandono paterno afeta aspectos psicológicos e sociais nas mulheres que criam seus filhos sozinhas: “Ser uma mãe solo é algo estigmatizado desde tempos remotos da civilização brasileira, e isso é um peso social que é impossível não impactar no status psicológico de um ser humano” afirma a profissional, também responsável pelo projeto “Elas Merecem”, dedicado a fornecer atendimento psicológico facilitado para mulheres de todo o país. Nesse contexto, o “dar conta de tudo” se torna um grande desafio, pois a mulher enfrenta uma pressão psicológica imensa para gerenciar todas as responsabilidades profissionais e domésticas, enquanto o abandono paterno é pouco criticado socialmente, e o papel masculino é frequentemente limitado ao aspecto financeiro.
De acordo com pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres brasileiras passam, em média, 21,3 horas semanais em atividades e afazeres domésticos, combinando o trabalho remunerado com as exigências não remuneradas do lar. Essa sobrecarga leva a queixas de cansaço, desânimo, tristeza, solidão e desamparo: “Então, eu diria que a marca psicológica da ausência paterna sobre a mulher no Brasil é a sobrecarga mental. Ela é totalmente sobrecarregada pelas minúcias desse dia a dia que ela vai ser obrigada a administrar como um papel fundamental e basicamente indiscutível para ela“ declara a psicóloga.
Thaís também destaca que o impacto ultrapassa o campo individual e mental, afetando aspectos econômicos e sociais que reforçam desigualdades, e aponta o empobrecimento como principal consequência disso: “Para além das nuances do estigma, de tudo isso que é um reflexo, o principal é que as mulheres empobrecem porque tem filhos e os homens não cuidam deles. E a gente não consegue ascender enquanto um gênero presente na sociedade que tem relevância social e participação no mercado de trabalho, que tem voz e potência política, justamente por essa posição de vulnerabilidade”.
Dados da FGV apontam que 90% do aumento de mães solo entre 2012 e 2022 foram mulheres negras e 72,4% delas vivem sem nenhum apoio próximo. A combinação de questões raciais e de gênero agrava a situação, com impacto na renda e na capacidade de desenvolvimento profissional: “A mulher é economicamente massacrada pela tarefa de ser mãe”, pontua Thaís.
A naturalização desse fenômeno remonta tempos coloniais com a cultura dos “filhos bastardos”. A sociedade não condena os homens por não assumirem suas responsabilidades paternas, eles se sentem autorizados a não serem pais, e a cultura não impõe estigmas a eles por essa falha, enquanto as mulheres são frequentemente culpabilizadas e estigmatizadas.
No Brasil, a legislação costuma tratar o abandono paterno quase exclusivamente sob a ótica da pensão alimentícia. Mas a ausência paterna é muito mais ampla do que a falta de sustento material, é também ausência emocional, educativa e simbólica. A lei cobra o dinheiro, mas não pode cobrar o cuidado. Não há mecanismos que incentivem o envolvimento afetivo e cotidiano do pai na criação dos filhos. Ao limitar-se ao aspecto financeiro, a sociedade reduz a paternidade a uma função de provedor e perpetua a ideia de que o vínculo emocional é descartável. Essa lógica reforça a desigualdade de gênero, enquanto as mães seguem sendo responsabilizadas por tudo: amor, tempo, educação e sustento, muitos pais continuam isentos dessas funções. Além disso, os filhos crescem desprovidos da figura paterna e muitas vezes precisam lidar com essas feridas individualmente quando envelhecem: “Eu tentava sair com ele e ficava ainda mais triste depois, porque ele não tinha interesse na minha vida e eu queria que ele fizesse parte”, lembra Julia.
Thaís Carvalho enfatiza que a sociedade brasileira não se preocupa com o abandono das crianças, e que a responsabilidade de lutar contra essa realidade recai, mais uma vez, sobre as mulheres, mas destaca que não é possível alterar essa realidade sem atingir os homens por meio de uma revolução da cultura de irresponsabilidade ensinada a eles desde a infância: “Quem pensa que o feminismo é um movimento contrário aos homens, está totalmente enganado e não entendeu nada dos objetivos do feminismo. Porque a gente nunca vai alcançar os nossos objetivos sem que os homens tenham uma mudança das condições sociais de desenvolvimento deles, porque o machismo tortura os homens na infância. O machismo é uma máquina que esmaga a todos”.
Falar sobre abandono paterno é cutucar uma ferida aberta da sociedade brasileira, que atravessa lares e gerações. Enquanto as mães seguem acumulando funções e os filhos aprendem a lidar com o vácuo, o tema ainda é pouco discutido fora do campo individual. Histórias como a de Julia revelam que a ausência de um pai não é apenas um drama familiar, mas um espelho de como o cuidado ainda é visto como responsabilidade feminina. Romper com essa lógica é essencial para que o cuidado deixe de ser uma obrigação isolada e se torne uma pauta social. Enfrentar o abandono, portanto, é também fortalecer as mulheres como classe política, e questionar um modelo de sociedade que se apoia na invisibilidade do trabalho feminino.