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	<title>Ciência e Cultura &#187; Gênero</title>
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	<description>Agência de notícias sobre ciência, tecnologia e inovação da Bahia</description>
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		<title>Querida, me tranquei com as crianças!</title>
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		<pubDate>Tue, 21 Apr 2020 17:44:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pesquisador</dc:creator>
				<category><![CDATA[Noticia da home]]></category>
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		<description><![CDATA[Ficar em quarentena com crianças nos faz refletir sobre os sentidos do cuidar em nosso cotidiano. E, ao que tudo indica, valores como cuidado e empatia farão parte de nossas vidas pós-COVID19]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div>
<p>Quem assistiu “Sessão da tarde” nos anos 1990 certamente viu os filmes “Querida, encolhi as crianças” e “Querida, estiquei o bebê”. No primeiro, o pai, inventor desastrado, acaba encolhendo os filhos acidentalmente em uma de suas descobertas para um tamanho menor do que de formigas e os perde no jardim da casa. No segundo filme da série, ele transforma o bebê de dois anos, com toda sua potência destrutiva, em um gigante.</p>
</div>
<div>
<p>Eu não gosto de reproduzir essa normalização de pais desastrados que, em geral, traz subentendida a ideia de que as mulheres têm um alento inato para lidar com crianças e que os homens não são naturalmente tão bons assim. Como se, nós, mulheres, tivéssemos capacidades mágicas que nos fizessem trocar fraldas ou preparar mamadeiras praticamente de olhos fechados, puramente com a intuição, e não por exercícios de pensamento lógico e esforço que partem exclusivamente da necessidade.</p>
</div>
<div>
<p>Apesar de este luxo (leia-se privilégio de gênero/classe) do pai desajeitado estar na essência do enredo destes filmes,  não consigo achar uma forma melhor de descrever o momento atual. Creio que estamos vivendo, na própria pele, o terceiro número da série e ele se chama: &#8220;Querida, me tranquei com as crianças!”.</p>
<p style="text-align: center;">
<div id="attachment_26573" class="wp-caption aligncenter" style="width: 609px"><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2020/04/Q-Capa-1-.png"><img class="size-full wp-image-26573 " title="Capa" src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2020/04/Q-Capa-1-.png" alt="" width="599" height="373" /></a><p class="wp-caption-text">Imagem: Giovanna Hemerly</p></div>
</div>
<div>
<p>Quem é cuidador(a) de criança e está entre paredes com estes seres energizados sabe muito bem que a tarefa é das mais desafiadoras. Por aqui em casa, às 11 horas da noite, depois de 14 horas de brincadeiras ininterruptas que envolvem intermináveis encenações teatrais, acrobacias como cabriolas e ficar de cabeça para baixo incontáveis vezes por dia, é comum ouvir : “Mamãe, eu não quero dormir, dormir é chato. A gente não faz nada quando dorme”. Depois disso, metade de mim é cansaço e a outra metade é vontade de ter esta disposição. Com meu torcicolo e lombalgia cotidianos, resta-me ver o rebento ficar com pernas para o ar nas diversas superfícies da casa &#8211; sofá, cama, chão…e torcer para que o sofá, ela e todos nós saiamos inteiros desta quarentena.</p>
</div>
<div>
<p>Enfim, a parentalidade é algo realmente desafiador e, nestes tempos de pandemia, como tudo, este desafio se potencializou. A máxima: “é preciso uma aldeia para cuidar de uma criança” é sentida mais do que nunca. Mesmo que em nossa sociedade contemporânea tenhamos capitalizado a aldeia, no fim, a realidade é só uma: as necessidades de um ser humano em formação são imensas e diversas e demandam trabalho coletivo. E nestes tempos de quarentena, a aldeia não pode mais ser capitalizada. Não tem escola, babá, natação, musicalização, etc. Somos nós com nossos filhos dentro de casa. E esse nós, muitas vezes, é feminino.</p>
<p style="text-align: center;">
<div id="attachment_26574" class="wp-caption aligncenter" style="width: 609px"><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2020/04/monalisa-atarefada.png"><img class="size-full wp-image-26574     " title="monalisa-atarefada" src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2020/04/monalisa-atarefada.png" alt="" width="599" height="373" /></a><p class="wp-caption-text">Papéis sociais pré-estabelecidos por uma sociedade sexista patriarcal ainda sobrecarregam e limitam a mulher contemporânea / Imagem: Giovanna Hemerly</p></div>
</div>
<div>
<p>As mulheres têm sofisticado e passado adiante a tecnologia do cuidado desde tempos ancestrais, como nos diz o<a href="https://www.youtube.com/watch?v=XcKx-uE4xrw" target="_blank"> ecofeminismo</a>, não porque somos naturalmente destinadas a isso, mas porque socialmente nos é resguardado este lugar, e acabamos por aprender e entender desde cedo os sentidos do olhar, cuidar e pensar no outro, enfim, o exercício da empatia. Cuidamos do outro muitas vezes às custas de nosso próprio autocuidado, de nossos sonhos e planos. E talvez seja devido ao valor social deste exercício contínuo de empatia que<a href="https://www.forbes.com/sites/tomaspremuzic/2020/04/10/are-female-leaders-better-at-managing-the-covid19-pandemic/#50c69b1a28d4" target="_blank"> os países que estão atravessando a pandemia de forma menos danosa sejam aqueles geridos por mulheres</a>.</p>
</div>
<div>
<p>Assim, buscando ser um pouco útil neste momento em que o cuidado se faz tão necessário, dedico as próximas linhas para escrever dois manuais de sobrevivência com crianças na quarentena. Neles, partilho algumas dicas de coisas que têm funcionado aqui em casa com uma criança de quatro anos. Espero que ajude! Vocês encontrarão duas versões, e peço que façam um exercício de empatia de ler as duas. Se você não tem filho pequeno em casa, pule direto para segunda versão. Voilà!</p>
</div>
<div style="text-align: center;">
<p><strong>Versão 1<br />
</strong></p>
<p><strong><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2020/04/Artboard-21.png"><img class="aligncenter size-large wp-image-26575" title="Artboard " src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2020/04/Artboard-21-1024x455.png" alt="" width="640" height="284" /></a><strong>Manual para sobrevivência na quarentena com crianças<br />
</strong><strong> (para famílias com comida na despensa)</strong></strong></p>
</div>
<p>Se você tiver o que dar de comer para suas crianças, tiver celular ou computador com acesso a internet em casa,  então este manual pode ser útil para você.  Ainda assim recomendo a leitura da segunda versão, sua leitura pode ser útil para outras famílias.</p>
<p><span style="font-size: 16px;">1 &#8211; Desista dos seus planos de produtividade! Lembre-se que<a href="https://medium.com/@rntpincelli/quarentena-porque-vc-deveria-ignorar-toda-a-pressao-para-ser-produtivo-agora-3f4f0b8378ae   " target="_blank"> em tempos de calamidade o mais importante é permanecer vivo e em segurança</a>. Se você precisar de inspiração, vá no Instagram de Paula Lavigne e veja Caetano Veloso comendo paçoquinha na paz de odara!</span></p>
<p><span style="font-size: 16px;">2 -Lembre a criança que a quarentena vai acabar e faça planos! A saudade dos parentes e amigos pode ser ressignificada se você lembrar as crianças que vocês vão reencontrar os amigos em passeios no parque, na praia, no shopping. As crianças vão lembrar com alegria desses planos quando a quarentena acabar &#8211; e um dia ela vai!</span></p>
<p><span style="font-size: 16px;">3 &#8211; Manuais na internet podem ser muito mais que abas abertas em seu celular e computador. Alguns podem ser de fato úteis! Sem muitas cobranças, se arrisque a ler e aplicar alguns deles no cotidiano. Desde de<a href="https://www.youtube.com/channel/UCLdKs4J6gNnFq7838a3SIpw" target="_blank"> dinâmicas de teatro com crianças</a>, a como fazer massinha com farinha de trigo, há varias dicas que podem render programas divertidos entre quatro paredes.</span></p>
<p><span style="font-size: 16px;">4 &#8211; </span><span style="font-size: 16px;">Recicle! </span><span style="font-size: 16px;">As crianças vão se cansar de seus brinquedos e provavelmente vão reciclar alguns elas mesmas depois de quebrá-los, e nesta quarentena haverá oportunidade e energia para quebrar muitos. Então, aprenda a lição e se volte para fonte interminável de brinquedos que você produz todo dia em casa: seu lixo reciclável. Embalagens de café, biscoitos, garrafas pet, rolos de papel higiênico e de papel toalha, caixa de ovos são matérias-primas fantásticas para várias artes. Você verá que dá para fazer muita coisa sem precisar ter uma papelaria em casa!</span></p>
<p><span style="font-size: 16px;">5 &#8211; Assista filmes com as crianças! Se você normalmente controla o tempo na tela, na quarentena este controle irá se relaxar um pouco. Não morra de culpa por isso, e aproveite para ver filmes infantis junto com a prole! Desenhos animados podem ser relaxantes e alguns ainda possuem belas mensagens. Além de tudo, é uma ótima maneira de incentivar a criança a ver aquele desenho mais didático que você tenta convencê-la a tempos a ver sem sucesso!</span></p>
<p><span style="font-size: 16px;">6 &#8211; Cozinhem juntos! Integrar as crianças nas atividades da casa nem sempre é possível. Mas, de longe, cozinhar é a atividade preferida delas. Faz uma meleira, mas é educativo e sensorial. Pode até dar um empurrãozinho para as crianças provarem novos sabores. Coloca essas mãozinhas para amassar o pão!</span></p>
<p><span style="font-size: 16px;">7 &#8211; Plantem! Pode ser feijão, uma muda de alho ou de manjericão, pode ser batata, cenoura ou cebola! Maior parte da comida em sua geladeira pode virar uma planta! Se não tiver terra, coloque a muda na água em uma garrafa vazia e espere a raiz sair. Serão cinco minutos de distração todo dia conversando com as mudinhas. Qualquer minuto de tranquilidade vale ouro nestas condições!</span></p>
<p><span style="font-size: 16px;">8 &#8211; E, por último, mas não menos importante, aprenda com as crianças a aproveitar o momento! Embora elas possam estar estressadas com o que está acontecendo e até ter incorporando o vocábulo “coronavírus&#8221; em suas brincadeiras, certamente não estão preocupadas com o futuro do país, da humanidade, nem quando, como e se o mundo voltará a ser como antes. As crianças têm habilidade nata de ressignificar experiências e de viver o presente. Então aproveite a companhia delas como a melhor terapia neste período de incertezas. Elas produzem pílulas de sabedoria no meio de um mar de gritaria e bagunça!</span></p>
<div style="text-align: center;">
<p><strong>Versão 2</strong></p>
<p><strong><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2020/04/Artboard-12.png"><img class="aligncenter size-large wp-image-26576" title="Artboard " src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2020/04/Artboard-12-1024x455.png" alt="" width="640" height="284" /></a><br />
</strong><strong>Manual para sobrevivência na quarentena com crianças<br />
</strong><strong>(para famílias com comida na despensa)</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong> </strong></p>
</div>
<div>
<p>Se você não tiver o que dar de comer para suas crianças, não tiver celular ou computador com acesso a internet em casa, então provavelmente você não estará lendo este texto.  E realmente eu não saberia o que escrever para você. Eu não tenho a mínima ideia do que dizer para alguém que está com um filho passando fome em casa. Meu conhecimento, minha educação, minhas palavras sofisticadas de nada servem para aplacar um injustiça desta proporção. Portanto eu falo para você, que tem comida na despensa, e pode fazer algo por quem não tem e não está lendo este texto.</p>
</div>
<div>
<p>Nenhuma mãe deveria jamais ver um filho sentir fome. Em uma terra que &#8220;em se plantando tudo dá” essa deveria ser nossa máxima. E foi um dia. Lembram do lema “Brasil sem fome”? Ele surtiu efeito e implantamos <a href="https://nacoesunidas.org/programa-bolsa-familia-e-exemplo-de-erradicacao-de-pobreza-afirma-relatorio-da-onu/" target="_blank">uma tecnologia social reconhecida internacionalmente </a>na erradicação da pobreza que <a href="https://nacoesunidas.org/crescimento-da-renda-dos-20-mais-pobres-ajudou-brasil-a-sair-do-mapa-da-fome-diz-onu/" target="_blank">tirou o Brasil do mapa da fome, o Bolsa Família</a>. E esta tecnologia pode ser o caminho das pedras para ajudar as famílias em situação de vulnerabilidade social neste momento de crise.</p>
</div>
<div>
<p>Carolina de Jesus, escritora negra, catadora de papel, que criou três filhos sozinha em uma periferia em São Paulo na década de 1950, escreveu em seu livro Quarto de despejo: diário de uma favelada: &#8220;É preciso conhecer a fome para saber descrevê-la (…) A fome também é professora. Quem passa fome aprende a pensar no próximo, e nas crianças”</p>
</div>
<div>
<p>Então, se você leu este manual até aqui, provavelmente você, assim como eu, não tem a fome como professora. Mas, ainda assim, pode ter empatia e ajudar quem está com as crianças em casa e não tem farinha de trigo e óleo sobrando na despensa para fazer massinha.</p>
</div>
<div>
<p>Diversos projetos sociais estão trabalhando para dar cesta básica para famílias de baixa renda. Procure organizações da sociedade civil do seu bairro, da sua vizinhança, do seu estado, e contribua de alguma forma!</p>
</div>
<div>
<p>Se você não sabe quem ajudar, apresento duas organizações que trabalham com povos indígenas. Muitos indígenas dependem da venda de seus artesanatos e outros precisam ir às cidades para vende-los e adquirir suprimentos. Com a pandemia, eles estão impedidos de trabalhar pois têm permanecido nas aldeias para não se contaminarem na cidade.  Os indígenas superam epidemias desde a chegada dos portugueses nestas terras. Vamos apoia-los para superar mais uma. Você pode ajudá-los através destes links:</p>
</div>
<div>
<p>1) A Articulação de Povos Indígenas do Brasil está realizando uma<a href="https://www.vakinha.com.br/vaquinha/apoie-os-povos-indigenas" target="_blank"> campanha </a>para arrecadar verbas que serão destinadas para compra de alimentos e remédios para aldeias indígenas.</p>
</div>
<div>
<p>2) O Instituto Socioambiental fez uma lista das campanhas realizadas pelos povos indígenas, que pode ser vista <a href="https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/saiba-como-ajudar-indigenas-e-povos-da-floresta-no-combate-ao-coronavirus" target="_blank">aqui</a>!</p>
</div>
<div>
<p>Vamos exercer esta tecnologia social feminina ancestral e cuidar uns dos outros. Ao que tudo indica, ao sairmos dessa,<a href="https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/04/mundo-pos-pandemia-tera-valores-feministas-no-vocabulario-comum-diz-antropologa-debora-diniz.shtml" target="_blank"> vamos incorporar valores como cuidado, amparo e empatia em nosso cotidiano</a>. Ao conhecimento ancestral feminino está resguardado o futuro da humanidade.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2020/04/Contra-capa-coluna2.png"><img class="aligncenter size-full wp-image-26578" title="Contra-capa-coluna" src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2020/04/Contra-capa-coluna2.png" alt="" width="629" height="392" /></a></p>
<p><em>*Joana Brandão é jornalista, cineasta e educadora. Sempre sonhou em vivenciar um momento histórico importante para humanidade. Só não pensou que seria agora e trancada na própria casa. Escreve a coluna “Crônicas do fim do mundo” para a Ciência e Cultura sobre implicações socioculturais da pandemia global pelo Covid-19.</em></p>
</div>
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		<title>Ato de Quatro: resistência feminina na universidade</title>
		<link>http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/noticias/ato-de-quatro-cultura-e-resistencia-feminina-na-universidade/</link>
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		<pubDate>Wed, 23 Oct 2019 16:54:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pesquisador</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ciclo de Nós agita o projeto de extensão Ato de Quatro da Escola de Teatro da UFBA nas segundas de outubro. A atividade está ameaçada de término, o que mobilizou o público feminino no intuito de fortalecer a Cultura e a extensão dentro da universidade]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p dir="ltr">Segunda-feira, Às 19 horas, na sala 104 do Pavilhão de Aulas da Federação (PAF V), no campus da Universidade federal da Bahia (UFBA), em Ondina, 9 mulheres, vestidas de branco atuam. A plateia está lotada, a porta aberta e o ar condicionado desligado. A cena Ciclo de Nós, dirigida, produzida e encenada exclusivamente por mulheres movimenta o projeto de extensão da Escola de Teatro da UFBA, Ato de Quatro, durante o mês de outubro. O feito surpreende uma vez que ocorrem boatos acerca do fim do Ato.</p>
<p dir="ltr">Ciclo de Nós aborda temas relacionados a vida das mulheres da infância à fase adulta: menstruação, primeiro beijo, descoberta da sexualidade, homossexualidade e casamento. As atrizes, do 2° semestre, têm entre 18 e 22 anos e promovem uma reflexão sobre o que é ser mulher em uma sociedade que impõe muitos padrões. A ideia de criar uma cena unicamente com mulheres veio da estudante de interpretação teatral, Stefanny Mascarenhas, 21 anos. “Eu fui assistir o Ato de Quatro e a plateia era composta apenas por homens e as cenas também”, conta a atriz que sugeriu a criação da cena para as colegas de curso.</p>
<p dir="ltr">
<div id="attachment_26169" class="wp-caption aligncenter" style="width: 586px"><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2019/10/atodequatro.jpg"><img class="size-large wp-image-26169 " title="Espetáculo encenado e dirigido apenas por mulheres / Foto: Maysa Polcri " src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2019/10/atodequatro-1024x576.jpg" alt="" width="576" height="324" /></a><p class="wp-caption-text">Espetáculo encenado e dirigido apenas por mulheres / Foto: Maysa Polcri </p></div>
<p>Lidiane Souza é estudante de direção teatral e uma das duas diretoras de Ciclo de Nós, conta que o projeto é resultado de uma troca verdadeira de experiências entre mulheres. “Estar em um trabalho só com mulheres nos fortalece, é uma forma de reafirmamos que podemos estar onde quisermos”, afirma a estudante do 2° semestre, que também pontua as complicações de ocupar um espaço comumente atribuído aos homens: “é necessário que as diretoras também façam a função de produtoras devido às dificuldades de conseguir um trabalho”, reporta.</p>
<p dir="ltr">A diretora comenta que o projeto Ato de Quatro é organizado por homens e que eles não compreendem o motivo de poucas mulheres acostumarem participar e assistir as cenas. “Eles não vão entender o porquê de não irmos lá e que às 19 horas é muito tarde para nós, mulheres, irmos para a UFBA e voltarmos tarde para casa”, afirma a Lidiane sobre a falta de segurança.</p>
<p dir="ltr">Quanto a plateia cheia, ela diz que é normal que o público seja formado mais por mulheres, devido à temática da cena, mas que esse não é o objetivo. A estudante de jornalismo, Inara Souza, assistiu a cena e se identificou com as situações trazidas pelas atrizes e diretoras. “Eu gostei muito da maneira que elas abordaram, de forma fácil, trazendo o cotidiano das mulheres”, conta.</p>
<p dir="ltr">
<div id="attachment_26170" class="wp-caption aligncenter" style="width: 522px"><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2019/10/atodequatro1.jpg"><img class="size-large wp-image-26170 " title="Espetáculo encenado e dirigido apenas por mulheres / Foto: Maysa Polcri " src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2019/10/atodequatro1-1024x576.jpg" alt="" width="512" height="288" /></a><p class="wp-caption-text">Foto: Maysa Polcri </p></div>
<p><strong>O PROJETO</strong> &#8211; O Ato de Quatro completará 23 anos em novembro deste ano e é gerido pelos alunos da Escola de Teatro da UFBA. O projeto é o único espaço onde os estudantes podem experimentar livremente e ter um retorno do público. A ideia inicial era que em todas as segundas-feiras do mês quatro cenas fossem apresentadas, em outubro, apenas Ciclo de Nós e Esquizofrenia Contemporânea entraram em cartaz, o que fortaleceu os boatos de que o Ato está com os dias contados.</p>
<p dir="ltr">O licenciando em teatro, Sidnaldo Lopes, 26 anos, coordena o projeto de extensão. Para ele, 9 mulheres em cena faz com que o público cresça já que cada uma convida pessoas para assistirem. Em geral, ele afirma que tanto o público como os atores não estão mais tão interessados no programa de extensão. “Depois que fomos remanejados a plateia ficou mais fraca e quantidade de cenas inscritas também diminuiu”, comenta sobre a dispersão do público.</p>
<p dir="ltr">A mudança a qual ele se refere foi realizada em 2017 quando os estudantes de Teatro foram retirados do prédio que a escola ocupava sob a promessa, até hoje não cumprida, de que um novo prédio seria construído em 1 ano e meio. Para os estudantes não ficarem apenas com o Teatro Martim Gonçalves, no bairro do Canela, para apresentarem as mostras, a sala 104 do PAF V passou a ser utilizada para as apresentações do Ato de Quatro.</p>
<p dir="ltr">Devido à pouca procura, surgem dúvidas de que não é interessante para a escola manter o projeto já que ele ocupa a sala do PAF por um longo período. “São questionamentos que surgem em reuniões de departamentos em fim de semestre onde acontece a distribuição de onde serão ministradas as disciplinas”, afirma o coordenador Sidnaldo sobre o projeto que não conta com nenhum financiamento institucional.</p>
<p dir="ltr">
<div id="attachment_26171" class="wp-caption aligncenter" style="width: 586px"><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2019/10/atodequatro2.jpg"><img class="size-large wp-image-26171 " title="Espetáculo encenado e dirigido apenas por mulheres / Foto: Maysa Polcri " src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2019/10/atodequatro2-1024x576.jpg" alt="" width="576" height="324" /></a><p class="wp-caption-text">Foto: Maysa Polcri </p></div>
<p dir="ltr">De acordo com Sthefanny, idealizadora de Ciclo de Nós, a falta de público pode ser explicada por um fenômeno maior. “Estamos nos despolitizando, as pessoas vão se ocupando e deixando coisas que julgam menos importantes para trás”, afirma a atriz sobre o desinteresse geral da população na arte.</p>
<p dir="ltr"><em>*Estudante do curso de Jornalismo na Faculdade de Comunicação da UFBA e repórter da Agência de Notícias em CT&amp;I &#8211; Ciência e Cultura</em></p>
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		</item>
		<item>
		<title>Audre Lorde: autoafirmação, intersecção e poesia</title>
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		<pubDate>Thu, 02 May 2019 11:54:11 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[MUSA UFBA]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>
		<category><![CDATA[Raça]]></category>
		<category><![CDATA[racismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Pesquisadoras e ativistas baianas e alemãs estiveram presentes no evento que discutiu a vida e obra da poetisa norte-americana, Audre Lorde, além de lançar o documentário "Audre Lorde - Os Anos em Berlim - 1984 a 1992", dirigido pela cineasta e socióloga alemã Dagmar Schultz 
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			<content:encoded><![CDATA[<p dir="ltr">“Negra, lésbica, mãe, guerreira e poeta”, era com essas palavras que a ativista política estadunidense, Audre Lorde, autoafirmava-se. Considerada, hoje, um dos grandes expoentes do feminismo interseccional afro-americano, ela via nas palavras sobre autoafirmação o potencial para defesa e desconstrução da imposição cultural hegemônica. “Se eu mesma não me definir, eu seria esmagada nas fantasias de outras pessoas e comida viva”, dizia Lorde.</p>
<p>Foi através da militância em defesa da população negra e LGBT que a autora de <em>Sister Outsider</em> criou laços com a comunidade afro-alemã, na década de 1980, em especial com movimento de mulheres negras lésbicas alemãs, no qual foram trabalhados temas como identidade, autocuidado e autodenominação. Era através do diálogo, da arte, da escrita e da poesia que Audre Lorde auxiliava essas mulheres na construção de uma consciência negra alemã, enquanto oferecia ferramentas para o combate ao preconceito e discriminação daquela época. Hoje, suas obras são referência em pesquisas sobre raça, sexualidade, identidade e gênero no mundo inteiro.</p>
<div id="attachment_25736" class="wp-caption aligncenter" style="width: 567px"><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2019/05/Audre-Lorde-2.png"><img class="size-full wp-image-25736  " title="Audre-Lorde" src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2019/05/Audre-Lorde-2.png" alt="" width="557" height="365" /></a><p class="wp-caption-text">Imagem: Giovanna Hemerly</p></div>
<p dir="ltr">E, para mostrar as obras, vivências e lutas de Audre Lorde no período em que esteve na Alemanha, o Programa Integrado em Gênero e Saúde (Musa/UFBA), em parceria com o <a href="https://www.goethe.de/ins/br/pt/sta/sal.html">Goethe Institut</a>, promoveu o lançamento na Bahia do documentário <em>Audre Lorde &#8211; Os Anos em Berlim &#8211; 1984 a 1992</em>, dirigido pela cineasta e socióloga alemã <a href="http://www.dagmarschultz.com/">Dagmar Schultz</a> e traduzido pela primeira vez para o português por<a href="http://lattes.cnpq.br/4531010751430721"> Jéssica Oliveira</a>, do <a href="http://www.ppglitcult.letras.ufba.br/">Programa de Pós-Graduação em Literatura e Cultura da UFBA (PPGLitcult)</a>. O documentário traz o material gravado pela cineasta, com narração da própria Audre.</p>
<p>“Assim que ela chegou eu senti a necessidade e a importância de registrar sua estadia lá na Alemanha”, contou a diretora Dagmar Schultz, que esteve presente durante o lançamento na capital baiana. Além de relatar ao público como foi o período que conviveu com Audre Lorde e como decidiu produzir o documentário, a cineasta falou mais a respeito da produção audiovisual e como houve uma constante preocupação com a captura das falas de Audre, sendo uma das intenções do projeto dar à ativista o poder de contar sua própria história. “Era muito importante tirar fotos e gravar vídeos, mas também gravar os áudios porque, desse modo, a própria Audre poderia falar no filme”, explicou.</p>
<div id="attachment_25741" class="wp-caption aligncenter" style="width: 611px"><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2019/05/DSC_3688.png"><img class="size-full wp-image-25741 " title="DSC_3688" src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2019/05/DSC_3688.png" alt="" width="601" height="383" /></a><p class="wp-caption-text">Imagem: Giovanna Hemerly</p></div>
<p>A ideia de ser protagonista da própria história é, inclusive, o ponto chave para entender não só o objetivo do documentário, mas o próprio trabalho de Audre junto à comunidade negra, LGBT e feminista. Para a professora da <a href="https://ufrb.edu.br/">Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB)</a> e coordenadora do <a href="https://pt-br.facebook.com/coletivoangeladavis/">Coletivo Ângela Davis</a>, <a href="http://lattes.cnpq.br/6332981346537949">Ângela Figueiredo</a>, “o filme é um convite a uma reflexão sobre o lugar da identidade como parte prioritária do processo de ‘quem sou eu e para onde eu vou’”. Durante o evento, a professora destacou como o trabalho de Lorde foi capaz de discutir o processo identitário, não só por meio da autoafirmação racial, sexual e de gênero, mas também na autodenominação da nacionalidade. “A todo tempo ela está sinalizando os limites de identidade e diferença, e também a dupla pertença. Há muitas falas interessantes sobre ‘Eu sou afro, mas sou alemão! e esse mundo que me manda voltar para casa não compreende o que é se sentir ao mesmo tempo afro e alemão’, ou no caso de Lorde, se sentir ao mesmo tempo negra, lésbica e poeta”, afirmou.</p>
<div id="attachment_25756" class="wp-caption aligncenter" style="width: 611px"><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2019/05/DSC_3672.png"><img class="size-full wp-image-25756 " title="DSC_3672" src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2019/05/DSC_3672.png" alt="" width="601" height="377" /></a><p class="wp-caption-text">O evento lotou o auditório do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA / Imagem: Giovanna Hemerly</p></div>
<p><strong>“Onde estão as pessoas negras alemãs?” -</strong> Na década de 1980, o racismo não era um assunto abertamente discutido na Alemanha. Pessoas negras, nascidas no país, tinham sua identidade enquanto cidadãs alemãs não reconhecida. Desta forma, este segmento social era invisibilizado, silenciado e isolado, sendo destinado a sofrer todo tipo de violência e violação de direitos. Foi nesse contexto que Audre Lorde chega ao país a convite de Dagmar Schultz, na época professora da <a href="https://www.fu-berlin.de/">Universidade Livre de Berlim</a>, para ser docente visitante na universidade, iniciar um tratamento contra o câncer e dar início aos projetos de militância social que marcariam a história e vivências da comunidade afro-alemã.</p>
<p>Schultz conta que o primeiro impacto tido por Lorde ao chegar no país foi notar como a comunidade afro estava invisibilizada. “Onde estão as pessoas negras?”, teria perguntado ela ao perceber que os espaços públicos e de poder eram ocupados apenas por pessoas brancas. Apesar de na época a comunidade negra na Alemanha não ser tão populosa, a situação também era uma evidência das marcas históricas deixadas pela experiência colonial alemã em países do continente africano e pela Segunda Guerra Mundial, evento no qual a população negra em diáspora passou por explorações e foi lançada à condição de marginalidade social que viria perdurar por vários anos depois no país.</p>
<div id="attachment_25744" class="wp-caption aligncenter" style="width: 609px"><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2019/05/DSC_3677.png"><img class="size-full wp-image-25744 " title="DSC_3677" src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2019/05/DSC_3677.png" alt="" width="599" height="385" /></a><p class="wp-caption-text">Dagmar Schultz, diretora do documentário sobre Audre Lorde / Imagem: Giovanna Hemerly </p></div>
<p>“Antes que a Audre fosse a Berlim, ninguém na Alemanha se interessava por nós”, relatou <a href="http://www.ika-huegel-marshall.com/">Ika Hügel-Marshall</a>, escritora afro-alemã e co-roteirista do documentário sobre Audre Lorde. Filha de mãe alemã branca e de um soldado negro estadunidense da Segunda Guerra Mundial, que só veio conhecer depois de adulta, Ika sofria sozinha as opressões por ser a única garota negra em uma comunidade racista, sendo inclusive instruída, desde a infância, a acreditar que pessoas negras eram imorais e inferiores. Contudo, a convivência com Audre Lorde trouxe novas perspectivas acerca da sua identidade, além de abrir seus caminhos para o mundo da literatura. “Como vocês podem ver no documentário, Audre me incentivou muito a escrever o meu livro, que agora inclusive já tem uma tradução para o inglês”, disse a escritora.</p>
<p>Seu livro, que em inglês recebeu o nome de <em>Invisible Woman: Growing Up Black in Germany</em>, retrata o impacto do racismo ao longo de seu desenvolvimento, o sentimento de aversão contra si mesma, surgido deste impacto, e como se deu a luta pela sua autoaceitação. Foi com esta obra que Ika ganhou uma das edições do <em>Audre Lorde Literary Award</em>, prêmio literário anual concedido para poetisas lésbicas.</p>
<div id="attachment_25747" class="wp-caption aligncenter" style="width: 629px"><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2019/05/DSC_37031.png"><img class="size-full wp-image-25747 " title="DSC_3703" src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2019/05/DSC_37031.png" alt="" width="619" height="413" /></a><p class="wp-caption-text">Ika Hügel-Marshall, co-roteirista do documentário / Imagem: Giovanna Hemerly</p></div>
<p>Apesar de ainda existir o preconceito e a discriminação racial, a Ika afirma que “A Alemanha é hoje um país multicultural”, já que houve nos últimos anos um crescimento de grupos sociais minoritários. A escritora, que atualmente integra o <a href="http://www.adefra.com/">ADEFRA (Afro-Deutsche Frauen)</a>, movimento social de mulheres afro-alemãs, conta que os grupos minoritários estão criando uma relação de união, apoio e trabalho mútuo. “De fato, conseguimos nos encontrar enquanto afro-alemãs e fazer trabalhos políticos juntas. Hoje em dia há um encontro anual e nacional de pessoas afro na Alemanha, além de trabalharmos em conjunto com outras minorias. Inclusive lá tem também um grande grupo de brasileiros e brasileiras com quem nós trabalhamos juntos”, relata.</p>
<p dir="ltr"><strong>“Não existe hierarquia de opressão” </strong>- “No Brasil é um desafio ser negro, mas ser mulher negra é muito difícil!”, afirmou a professora coordenadora do <a href="http://institutoodara.org.br/">ODARA &#8211; Instituto da Mulher Negra</a> e integrante do Grupo Assessor da Sociedade Civil da <a href="http://www.onumulheres.org.br/">ONU Mulher</a>, <a href="http://lattes.cnpq.br/1981740207234176">Benilda Brito</a>, durante o evento. A professora, que participa de movimentos feministas e negro desde de a década de 1980, relatou, com base nas ideias de Audre Lorde sobre interseccionalidade, como a luta da mulher negra tem uma singularidade perante às reivindicações de mulheres brancas e homens negros, e como essa singularidade, apesar de urgente, tem sido desconsiderada dentro dos próprios movimentos sociais. “Tem uma especificidade que é nossa e que é gritante. E só quem é mulher negra sabe do que eu estou falando, sabe qual é a dor e a delícia de carregar essa identidade”.</p>
<p>Desde 1960, Lorde já chamava atenção para a interseccionalidade existente entre os grupo minoritários, tornando-se assim uma das grandes pioneiras a tratar do assunto no feminismo. Foi nesse período que a ativista denunciou a relação de opressão ocorrida dentro do próprio movimento feminista, sinalizando como as questões colocadas por mulheres negras eram subjugadas diante das pautas colocadas por feministas brancas. Audre Lorde afirmava que para sujeitos interseccionais, como no caso de mulheres negras lésbicas, a opressão ocorre de forma simultânea e não categorizada. Ou seja, o racismo, o machismo e a lesbofobia acontece ao mesmo tempo porque a identidade dessas mulheres é vivida como um todo e não de forma fragmentada, declarando assim não existir hierarquia de opressão, já que nenhum grupo social tem mais direito de viver livre da intolerância que qualquer outro grupo.</p>
<div id="attachment_25749" class="wp-caption aligncenter" style="width: 611px"><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2019/05/DSC_3717.png"><img class="size-full wp-image-25749   " title="DSC_3717" src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2019/05/DSC_3717.png" alt="" width="601" height="397" /></a><p class="wp-caption-text">A ativista social Benilda Brito associou o pensamento de Audre Lorde às questões de interseccionalidade no Brasil / Imagem: Giovanna Hemerly</p></div>
<p dir="ltr">A partir dessa concepção de Lorde, Benilda Brito ressalta que as problemáticas enfrentadas por um grupo social devem entrar também na pauta de discussões de outro grupo, justamente por existir um ponto interseccional entre ambos. “Quando uma mulher negra sofre racismo, tem que ser uma preocupação de todo movimento LGBT+. Quando alguém do movimento LGBT+ sofre lgbtfobia tem que ser toda uma preocupação do movimento negro. Porque muitas mulheres negras são lésbicas e muitas mulheres lésbicas são negras”, enfatizou.</p>
<p dir="ltr">“Como pensar essa relação entre tensões possíveis, alianças possíveis e afetos possíveis?”, questionou a coordenadora do Coletivo Ângela Davis, <a href="http://lattes.cnpq.br/6332981346537949">Ângela Figueiredo</a>, sobre essa relação de diferenças e igualdades entre os grupos sociais. Para ela, apesar das características distintas de cada grupo e a necessidade de preservação da própria identidade, há também a urgência de união e respeito nas lutas sociais, especialmente diante da atual conjuntura do país. “Nesse contexto político que vivemos agora, é preciso pensar, como Audre sugere, essas formas, por um lado de autocuidado, mas também pensar nas alianças possíveis”. Segundo a coordenadora, a separação entre os grupos sociais não tem origem na diferença, mas sim, na resistência em reconhecer e respeitar as particularidades de cada grupo.</p>
<div id="attachment_25750" class="wp-caption aligncenter" style="width: 620px"><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2019/05/DSC_3734.png"><img class="size-full wp-image-25750 " title="DSC_3734" src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2019/05/DSC_3734.png" alt="" width="610" height="419" /></a><p class="wp-caption-text">Para a pesquisadora Ângela Figueiredo, as tensões entre grupos sociais e a necessidade de aliança têm sido um grande desafio nas lutas sociais / Imagem: Giovanna Hemerly</p></div>
<p style="text-align: center;" dir="ltr">
<p dir="ltr"><strong>“Seu silêncio não irá te salvar” -</strong> Durante o lançamento do documentário sobre Audre Lorde, as pesquisadoras e ativistas convidadas discutiram também as ideias da poetisa afro-americana acerca do medo, assunto abordado na própria narrativa do filme. Para Lorde é justamente esse sentimento que leva diversas mulheres em situação de violência e opressão a silenciar-se como uma tentativa de se proteger. No entanto, Audre alertava que, diante de suas experiências acerca do seu próprio silenciamento, calar-se é apenas mais uma forma de violência contra a própria autoafirmação. “Somos ensinadas a respeitar o medo mais do que nós mesmas”.</p>
<p dir="ltr">De acordo com Ângela Figueiredo, um dos pontos altos do documentário é justamente a retratação da poesia e da arte como uma arma para superação do medo. Ângela lembra que foi também através de seus poemas que Audre conseguiu notoriedade para as causas da mulher negra lésbica. Diante disso, a pesquisadora afirma que trazer a luta social para produção, tanto artística como científica, é uma forma de combater o silenciamento que surge frente a preponderância da intolerância e violência contra os grupos sociais minoritários. “O que eu acho que a gente está pensando é a nossa condição acadêmica como uma arma. Muitas de nós não tem a poesia, eu mesma não tenho habilidade para ser poeta, mas tenho feito da minha experiência acadêmica uma arma de luta contra o racismo, o sexismo, a homofobia e todas formas de desigualdade”.</p>
<p dir="ltr">
<div id="attachment_25752" class="wp-caption aligncenter" style="width: 620px"><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2019/05/DSC_3736.png"><img class="size-full wp-image-25752 " title="DSC_3736" src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2019/05/DSC_3736.png" alt="" width="610" height="394" /></a><p class="wp-caption-text">A militante Tharcia Purificação relembrou o pensamento de Audre acerca do autocuidado, preservação da identidade e coletividade / Imagem: Giovanna Hemerly</p></div>
<p dir="ltr">
<p dir="ltr">“É importante que a gente consiga disseminar a informação entre nós”, afirmou a Integrante da <a href="https://pt-br.facebook.com/pg/brejo44/about/">Coletiva Brejo</a>, <a href="https://www.escavador.com/sobre/8468486/tharcia-da-purificacao-machado-dos-santos">Tharcia Purificação</a>, a respeito de como a quebra do silenciamento pode fortalecer a luta das mulheres negras lésbicas. Para Tharcia, como só uma mulher negra lésbica pode entender de fato as vivências e os sentimentos de outra mulher negra lésbica, o compartilhamento das experiências entre essas mulheres contribui para fortalecer o sentimento de identidade e união e tornar-se assim ferramenta no combate ao medo e ao isolamento. “Estes pequenos momentos que vivenciamos e partilhamos da nossa vida umas com as outras, nos faz fortalecer e nos restituir da identidade que nos foi tirada”.</p>
<p dir="ltr">Contudo, Tharcia Purificação ressalta que, durante o processo de enfrentamento, é importante também a autorreflexão para buscar identificar a origem dos sentimentos que impedem o combate à opressão. E questiona: “Que medos são esses que a gente ainda não consegue perceber em nós, mas que ainda faz a gente se paralisar e não se movimentar?”. Pois, na visão da militante, a autodeterminação e o autoconhecimento de Audre Lorde possibilitou e ainda possibilita que diversas mulheres negras lésbicas possam enxergar na poetisa o enfrentamento de seus maiores medos, já que a identidade também é construída de forma coletiva, não apenas individual, como coloca o atual modelo hegemônico. “Eu sou porque somos. Não sou sozinha. Essa é uma ideia vendida dessa sociedade branca e ocidental que coloca a individualidade como um caminho a ser seguido”, destacou.</p>
<p dir="ltr">
<div id="attachment_25753" class="wp-caption aligncenter" style="width: 602px"><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2019/05/DSC_3747.png"><img class="size-full wp-image-25753  " title="DSC_3747" src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2019/05/DSC_3747.png" alt="" width="592" height="395" /></a><p class="wp-caption-text">A pesquisadora Jéssica Oliveira do PPGLitcult da UFBA realizou as traduções do documentário, do evento e dos poemas de May Ayim / Imagem: Giovanna Hemerly</p></div>
<p dir="ltr">Além das discussões sobre a vida e a obra de Audre Lorde, o evento contou também com o lançamento do livro <a href="http://www.livrariafricanidades.com.br/pd-6428c1-voce-e-afro-alema-poemas-de-may-ayim-traducao-oliveira-jessica.html">“Você é Afro-alemã?”</a>, que contém poemas escritos por May Ayim, poetisa afro-alemã, incentivada a realizar-se também na arte da poesia por Lorde, durante o período que conviveu com ela no país germânico. A tradução dos poemas faz parte do trabalho de mestrado <a href="https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/193845/PGET0373-D.pdf?sequence=-1&amp;isAllowed=y">&#8220;May Ayim e a Tradução da Poesia Afrodiaspórica de Língua Alemã&#8221; (2018)</a>, da pesquisadora Jéssica Oliveira que participa atualmente do PPGLitcult da UFBA.</p>
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		<title>Curso de introdução ao pensamento de Judith Butler</title>
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		<pubDate>Mon, 20 Nov 2017 00:08:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pesquisador</dc:creator>
				<category><![CDATA[Eventos]]></category>
		<category><![CDATA[Últimas Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[cus]]></category>
		<category><![CDATA[Gênero]]></category>
		<category><![CDATA[IHAC]]></category>
		<category><![CDATA[judith Butler]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
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		<description><![CDATA[O curso será ministrado durante cinco tardes e inicia na próxima quinta-feira, dia 23, às 14h, no auditório B do Pavilhão de Aulas 5, campus de Ondina da UFBA]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O grupo de pesquisa em Cultura e Sexualidade (<a href="http://www.politicasdocus.com/" target="_blank">CUS</a>), atrelado ao<a href="http://www.ihac.ufba.br/" target="_blank"> Instituto de Humanidades, Artes e Ciências</a> (IHAC), realiza o curso de introdução ao pensamento de Judith Butler. O curso será ministrado durante cinco tardes e inicia na próxima quinta-feira, dia 23, às 14h, no auditório B do Pavilhão de Aulas 5, campus de Ondina.</p>
<p>Os interessados poderão fazer a sua inscrição na hora, gratuitamente. Quem participar de todo o curso receberá certificado de 15 horas. Certificados individuais por dia do curso também serão emitidos para as pessoas interessadas.</p>
<div id="attachment_23167" class="wp-caption aligncenter" style="width: 583px"><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2017/11/judith-butler.jpg"><img class="size-full wp-image-23167" title="judith-butler" src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2017/11/judith-butler.jpg" alt="" width="573" height="518" /></a><p class="wp-caption-text">Foto reprodução </p></div>
<p><strong>Cronograma:</strong></p>
<p><strong>23 de novembro: </strong>– Problemas de gênero e a teoria da performatividade de gênero – Leandro Colling</p>
<p><strong>30 de novembro: </strong>– Corpos que importam e as formações do abjeto – Mayana Soares e Matheus Santos</p>
<p><strong>7 de dezembro: </strong>– Vida precária e políticas de enlutamento – Alexandre Nunes<br />
08 de janeiro: –  Corpos aliados e lutas pela democracia – João Manuel de Oliveira e Tiago Sant´Ana</p>
<p><strong>22 de janeiro:</strong> – Caminhos divergentes e a questão palestina – Berenice BentoSempre das 14h às 17h no auditório B do PAF5 – Campus de Ondina, UFBA</p>
<p><strong>SERVIÇO:</strong></p>
<p><strong>O quê: </strong>Curso de introdução ao pensamento de Judith Butler</p>
<p><strong>Quando:</strong> dias 23 e 30/11; 7 e 8/12; 8 e 22/01 de 2018<br />
<strong> </strong></p>
<p><strong>Onde:</strong> Campus UFBA &#8211; Ondina</p>
<p><strong>Informações: </strong>http://www.politicasdocus.com/</p>
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		</item>
		<item>
		<title>Francisco Andrade</title>
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		<pubDate>Mon, 06 Feb 2017 14:48:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pesquisador</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Últimas Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Biologia e gênero na escola]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[Francisco Andrade]]></category>
		<category><![CDATA[Gênero]]></category>

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		<description><![CDATA[O biólogo, terapeuta ocupacional, mestre em Ensino, Filosofia e História das Ciências, e doutorando em Estudos Interdisciplinares sobre Gênero, Mulheres e Feminismo, Francisco Andrade, lançará no dia 08 de fevereiro seu livro Biologia e Gênero na Escola: Um diálogo ainda marcado por reducionismo, determinismo e sexismo. Publicação essa que é muito bem vinda e oportuna, pois traz uma discussão bastante pertinente para a atualidade, o ensino de gênero nas escolas. Mais precisamente, no ensino de Genética e Biologia em escolas de Ensino Médio da rede pública. A Agência de Notícias conversou com ele sobre seu livro e sobre outras questões relativas à temática, e que estão fervilhando na política atual e nas rodas de discussão]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="_mcePaste" style="text-align: center;">
<div id="attachment_20873" class="wp-caption aligncenter" style="width: 458px"><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2017/02/chicco.jpg"><img class="size-full wp-image-20873 " title="Francisco Andrade/ Foto: Arquivo pessoal" src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2017/02/chicco.jpg" alt="Francisco Andrade/ Foto: Arquivo pessoal" width="448" height="448" /></a><p class="wp-caption-text">Francisco Andrade/ Foto: Arquivo pessoal</p></div>
</div>
<p><strong>Agência de Notícias: Você é graduado em Ciências Biológicas, e no mestrado resolveu trazer seu conhecimento científico para as discussões de gênero. Porque se deu essa escolha de tema? Continua com essa área de pesquisa no doutorado no Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (<a href="http://www.neim.ufba.br/wp/" target="_blank">NEIM</a>)?<br />
</strong><strong><a href="http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4710605Y1" target="_blank"></a></strong></p>
<p><strong><a href="http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4710605Y1" target="_blank">Francisco Andrade</a>:</strong> Meu interesse pelas questões de gênero tem início na minha primeira graduação, Terapia Ocupacional, quando a professora Sofia, minha orientadora de TCC, me convenceu sobre a necessidade de inserir a categoria Gênero na discussão sobre a Gestação de Alto Risco. TCC apresentado em 2001. Em 2002, estudando Ciências Biológicas na UFBA, fiz um curso de extensão sobre Gênero, Sexualidade e Educação, onde conheci a professora Tereza Cristina e a professora Ângela, minha orientadora no mestrado. Com o curso, as questões de gênero presentes em meu TCC de 2001, ficaram mais bem esclarecidas e a paixão dessas duas professoras pela temática mexeu comigo. Mexeu como? Juro que não sei explicar (risos). Para piorar a situação a professora Ângela abriu um edital para seleção de bolsistas de iniciação científica (PIBIC/2004). Aí, eu comecei a trabalhar com ela no projeto de pesquisa Determinismo Biológico e Identidade de Gênero: percepções e representações de estudantes de graduação da UFBA até 2006. Daí veio meu projeto de pesquisa de mestrado e, consequentemente, o livro que será lançado no dia 8 de fevereiro.<br />
Hoje sou professor do curso de Terapia Ocupacional da Universidade Federal de Sergipe. Veja só que guinada, adoro guinadas! Resultado: saí do estudo sobre as implicações de gênero no ensino médio e fui estudar as implicações de gênero no ensino superior, mais especificamente, no ensino de Terapia Ocupacional. Ou seja, continuo estudando a temática no doutorado, agora com o foco na formação técnica e científica de Terapeutas Ocupacionais.<br />
<strong> </strong></p>
<p><strong>Agência de Notícias: Você é um homem estudando gênero no NEIM. Considera-se um feminista?<br />
</strong><strong> </strong></p>
<p><strong>Francisco Andrade: </strong>Agora você tocou numa questão delicada. O feminismo é plural. Há correntes feministas que entendem como contraditório o fato de um homem se considerar ou ser considerado feminista. Essa é uma questão importante para mim. Afinal, eu sou um homem estudando a temática de gênero e fazendo doutorado em estudos sobre feminismos.<br />
Como educador, eu busco levar a agenda feminista para a sala de aula e lá, a diversidade de gênero e suas interseccionalidades tomam voz assumindo o protagonismo através das alunas e alunos. Talvez essa seja a minha maior contribuição ao movimento feminista. Não tenho qualquer pretensão de falar por elas, hetero, homo, trans&#8230; O que elas vivem, só elas podem dizer. A opressão, subjugação, misoginia, as manifestações sexistas reveladas em discursos deterministas que essencializam estereótipos patrocinados por uma ciência patriarcal, a violência, velada ou não, presente no ambiente de trabalho, acadêmico, privado, entre outros. Elas possuem a objetividade forte necessária para falar. Elas possuem corpos que sentem, olhos que enxergam, ouvidos que ouvem, por isso são suas as “línguas” que devem falar, pois elas possuem a linguagem, o discurso mais coerente que pode haver. Assim, o que resta aos homens que se metem nesse assunto de gênero? Ouvi-las, vê-las, senti-las, sempre atenciosamente, sensivelmente, e sem qualquer pretensão de conclusão.<br />
E falar? Nós, homens podemos falar sobre elas? Este é o ponto que pega. Eu entendo que podemos falar sobre elas, mas com o cuidado necessário para que elas falem através de nós. Neste sentido, acredito que o homem que se mete nos estudos de gênero e feminismo deve ter muito cuidado com suas análises e desenvolver uma importante habilidade que requer sensibilidade, a habilidade para compreender o ponto de vista feminista. Neste sentido, me apoio nos estudos de Sandra Harding, uma importante epistemóloga feminista, que salienta que o ponto de vista feminista não deve ser confundido com ponto de vista de indivíduos do sexo feminino e chama atenção para importantes contribuições ao pensamento feminista, realizadas por homens. Ela diz: “É evidente que nem a capacidade nem a disposição de contribuir para o pensamento feminista são traços associados ao sexo”. Deste modo, acredito que sim, um homem pode contribuir para o movimento feminista. Entretanto, a pergunta é “você se considera feminista?” Estou estudando e sensível&#8230;<br />
<strong> </strong></p>
<p><strong>Agência de Notícias: Qual a temática central e o objetivo do livro Biologia e gênero na escola?<br />
</strong><strong> </strong></p>
<p><strong>Francisco Andrade:</strong> A temática central transita entre o determinismo biológico e as questões de gênero no ensino de tópicos de genética em aulas de biologia. O objetivo do livro é expor a análise das representações sociais de professores/as de biologia sobre questões de gênero e determinismo biológico – especialmente no que tange à construção das identidades de gênero – e suas implicações para as práticas educativas usadas no ensino de tópicos de genética no Ensino Médio de escolas da rede pública.<br />
<strong> </strong></p>
<p><strong>Agência de Notícias: Porque estudar questões de gênero especificamente no ensino da Biologia?<br />
</strong><strong> </strong></p>
<p><strong>Francisco Andrade:</strong> Vou me atrever a especificar ainda mais a pergunta. Porque estudar questões de gênero especificamente no ensino de tópicos de genética? O campo da genética, especialmente os tópicos tratados no Ensino Médio, está marcado por estereótipos sexistas. Isso não é muito difícil de ver. No livro trago diversos exemplos que revelam o uso de argumentos deterministas e o uso de estratégias reducionistas para explicar diferenças entre homens e mulheres nos campos da cognição, psicoafetividade e dos comportamentos sociais e sexuais. Essa é uma constante em importantes revistas de amplo impacto que abordam o universo científico clássico, como a Scientific American, por exemplo. Estas mídias costumam articular conhecimento do campo da genética com pesquisas em neurociência, colaborando para a ideia de que há genes capazes de explicar distintas funções cognitivas, por exemplo, e sua diferenciação sexual, ou seja, a ideia de que há distintas habilidades cognitivas entre homens e mulheres que são determinadas geneticamente.  Mas o problema não termina aí. O caldo entorna quando identificamos nestas mídias metáforas sexistas que inferiorizam as mulheres quando comparadas aos homens em suas características cognitivas, psicoafetivas e comportamentais.<br />
Estes estudos, muitas vezes com erros metodológicos aberrantes, além das parciais interpretações feitas por essas mídias em busca de venda, são espalhados na sociedade em geral e acabam chegando ao através de representações sociais sexistas sob a chancela de conhecimento científico.  E suas marcas acabam sendo bastante intensas no ensino de tópicos de genética, como revela o livro Biologia e Gênero na Escola.<br />
<strong> </strong></p>
<p><strong>Agência de Notícias: Você acredita que atacar os estereótipos de gênero durante o ensino da sua base, a biológica, ainda na escola, é a melhor forma de combater as desigualdades e preconceitos de gênero? Por quê?<br />
</strong><strong> </strong></p>
<p><strong>Francisco Andrade:</strong> Eu diria que revelar e problematizar os estereótipos de gênero durante o ensino de biologia é uma boa estratégia para enfrentar as desigualdades e preconceitos de gênero. Estes estereótipos são revelados nas representações sociais expostas em sala de aula. Ou seja, estão presentes nos discursos do senso comum das alunas e alunos, das professoras e professores. Entretanto, tais discursos sofrem forte influência da mídia científica que permeia o universo das adolescentes e dos adolescentes que fazem o Ensino Médio, assim como das professoras e professores. Consequentemente, são levados para as aulas de biologia para compor as discussões. O problema é que a ciência, que não é tão neutra como parece, chancela muitos dos estereótipos de gênero através de metáforas que inferiorizam as meninas e mulheres por sua condição cromossômica sexual (XX). O processo de inferiorização de gênero ocorre de modo sutil e velado, em explicações que se utilizam de um modelo reducionista atrelado a uma perspectiva determinista para associar as diferentes características fisiológicas e anatômicas do corpo humano feminino e masculino às diferentes características comportamentais, cognitivas e psicoafetivas, socialmente tomadas como diferentes entre homens e mulheres.<br />
As metáforas, frequentes nos discursos científicos, justificadas como estratégias didáticas voltadas para facilitar a compreensão pelo sujeito “comum”, são cruéis quando se trata das questões de gênero. Podemos citar aqui o caso das metáforas envolvendo o espermatozoide e o óvulo que atribuem ao espermatozoide o papel de protagonista na função reprodutiva por ser capaz de explorar o ambiente externo, rápido, resistente, forte e agressivamente voraz no processo de enfrentamento de todas as adversidades que o corpo feminino lhe impõe ao seu objetivo de “invasão” do óvulo e, consequentemente, gerar a vida, além de “determinar” o sexo de um novo ser que virá. Ao óvulo restaria o papel de coadjuvante, restrito ao ambiente interno, passivo, imóvel e que tenta se proteger com auxilio do corpo feminino, da inevitável “invasão” do espermatozoide. Esta metáfora revela de modo sutil uma condição de inferioridade imposta ao sexo feminino, entretanto, ela é vista como algo interessante e até engraçado pelos alunos e alunas e entendida pelos professores e professoras como uma boa estratégia pedagógica para o processo de aprendizado.<br />
Neste sentido, entendo que a sala de aula é um espaço para a desconstrução destas metáforas e problematização dos estereótipos nelas presentes. Para mim, essa é uma interessante estratégia para o enfrentamento das desigualdades e preconceitos de gênero.<br />
<strong> </strong></p>
<p><strong>Agência de Notícias: Em sua opinião, o que se aprende em aulas de biologia pode contribuir para o pensamento determinista de gênero ainda muito comum e danoso na atualidade? Por quê?<br />
</strong><strong> </strong></p>
<p><strong>Francisco Andrade:</strong> Entendo que sim, principalmente ao considerar o modo como é realizado o ensino de biologia, especificamente os componentes curriculares de anatomia, fisiologia, genética, citologia e evolução dos seres vivos. Por isso apoio uma formação de professores com uma capacitação adequada em estudos de gênero. O uso das “lentes de gênero” na prática educativa possibilita um processo “libertador”, tanto para as professoras e professores, quanto para as alunas e alunos.<br />
<strong> </strong></p>
<p><strong>Agência de Notícias: A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) defende que a educação sexual e de gênero nas escolas pode ajudar a prevenir as violências contra as mulheres. Qual a sua opinião sobre isso?<br />
</strong><strong> </strong></p>
<p><strong>Francisco Andrade:</strong> A educação, quando atenta ao contexto social escolar e comunitário, é o maior agente de prevenção contra qualquer tipo de violência.<br />
<strong> </strong></p>
<p><strong>Agência de Notícias: Qual a sua opinião sobre a &#8220;ideologia de gênero&#8221; e o seu ensino nas escolas, visto que os esforços do Ministério da Educação (MEC) em incluí-la no Plano Nacional de Educação (PNE) nos últimos anos têm gerado muita polêmica?<br />
</strong><strong> </strong></p>
<p><strong>Francisco Andrade:</strong> Em primeiro lugar, é preciso discutir o que seria o que certos setores conservadores chamam de “ideologia de gênero”. Para esses setores, seria uma forma de interpretar os papéis de homens e mulheres e suas relações no casamento e na família, de modo que os valores tradicionais seriam ameaçados por relacionamentos “versáteis”, com dissociação entre o sexo biológico, natural, por escolhas livres de orientação sexual; tais valores afetariam de modo radical o próprio conceito de família, com repercussões na esfera política, no ensino e na própria linguagem. Segundo ainda esses setores conservadores, os adeptos da tal ideologia de gênero querem ensinar as crianças que elas podem escolher qualquer opção sexual que quiserem.<br />
Esta articulação social se volta, portanto, contra a discussão sobre gênero e sexualidade nas escolas, utilizando uma rede de ações e estratégias político-ideológico que revelam de modo claro o viés de classe, raça, etnia, identidade de gênero, orientação sexual, entre outros, visando deturpar a agenda feminista, jogando a sociedade contra as feministas. Para mim o objetivo da desses setores é confundir a sociedade através de uma leitura completamente equivocada do conceito de gênero para a imposição de valores patriarcais e consequente ação de opressão e submissão da mulher. Além de promover a permanência de concepções equivocadas sobre a homossexualidade e outras expressões da sexualidade humana, favorecendo inclusive a homolesbotransfobia. A presença da temática de gênero nas escolas promove um potencial empoderamento das meninas estudantes, além da sensibilização dos meninos, além de contribuir claramente para a eliminação de todo o tipo de preconceito quanto à diversidade sexual e de gênero. E isso não é de interesse do patriarcado, pois vai de encontro à ideologia androcêntrica.<br />
<strong> </strong></p>
<p><strong>Agência de Notícias: O Congresso e as Câmaras vêm se opondo vorazmente à implantação do ensino de gênero nas escolas. Inclusive o Papa já se manifestou contrariamente ao tema &#8220;ideologia de gênero&#8221; e seu ensino. Porém, docentes e a sociedade também têm se manifestado a favor da inclusão. Como você vê essa situação? Acha que a há esperança de algum dia a temática ser debatida de forma natural nas escolas?<br />
</strong><strong> </strong></p>
<p><strong>Francisco Andrade:</strong> Essa discussão pega fogo nas rodas de conversa. É possível observar que a estratégia de questionamento da “ideologia de gênero” vem dando resultados positivos para os setores conservadores da sociedade. Isso fica claro quando conseguimos uma abertura para explicar o que é gênero e quais as bandeiras do movimento feminista para pessoas com perspectivas ideológicas não conservadoras, ou até aos conservadores assumidos. Quando as questões de gênero ficam claras para muitas dessas pessoas elas manifestam a sensação de que foram enganadas e entendem a importância da discussão sobre as questões de gênero na escola. Nada como um bom esclarecimento conceitual, político e filosófico. Vamos pensar&#8230; Quantos pais desejam que suas filhas sofram violência de gênero ou venham a ser prejudicadas em suas carreiras profissionais por serem mulheres? Quando eles entendem que a escola pode contribuir para evitar isso, eles apoiaram.<br />
A luta é árdua e injusta com os docentes. “Eles” possuem a grande mídia nas mãos e o poder das igrejas. Mas acredito que esse tal movimento contra a “ideologia de gênero” não vai para frente porque foi alimentado pelo tenso e polarizado contexto político atual, mas não terá fôlego para seguir adiante.<br />
Sim, tenho esperança. Tenho uma filha, quero vê-la cada dia mais empoderada quero, para ela, e para todas as outras meninas, uma escola que discuta questões de gênero e que contribua para empoderamento dessas futuras mulheres. Isso me motiva para continuar na luta e focado em meus estudos, isso reforça minha esperança.<br />
<strong> </strong></p>
<p><strong>Agência de Notícias: E mesmo que o tema venha a ser incorporado ao currículo escolar, você acha que os professores estão preparados para ensinar sobre o assunto ou será necessária uma atualização?<br />
</strong><strong> </strong></p>
<p><strong>Francisco Andrade:</strong> Essa é a grande questão. Acho que respondi em parte essa questão quando falei da importância das “lentes de gênero” na educação.<br />
Mas vou reforçar&#8230; Sou um entusiasta da educação e para mim, as questões de gênero devem estar presentes em todas as etapas da formação educacional do indivíduo. Isso certamente contribuirá para equidade de gênero e diminuição da violência contra a mulher. Entretanto, para que isso seja possível, os estudos de gênero &#8211; aqui eu falo da literatura de gênero e do vasto escopo teórico sobre o tema &#8211; devem compor o currículo de todas as licenciaturas e dos cursos de pedagogia, não só transversalmente, como também em disciplinas específicas.</p>
<p><em><em>*Estudante do curso de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da UFBA e repórter da Agência de Notícias em CT&amp;I – Ciência e Cultura</em></em></p>
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		<title>Katemari Rosa</title>
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		<pubDate>Fri, 03 Feb 2017 19:43:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pesquisador</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A Agência de Notícias conversou com Katemari Diogo da Rosa, ou simplesmente Katemari Rosa. Uma mulher, negra e física que, aos 8 anos, sonhava em ser astrônoma. Certamente, em sua adolescência vivenciada no planetário e no observatório de sua cidade, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, não imaginava que chegaria a inspirar pessoas com seu trabalho na ciência. Nem que se tornaria mestra em Ensino, Filosofia e História das Ciências, e mestra e doutora em Science Education, a fim de contribuir na formação de outros educadores. Hoje, como professora da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), está à frente do projeto "Contando nossa história: negras e negros nas ciências, tecnologias e engenharias no Brasil", que pretende resgatar a história de cientistas negros brasileiros, algo que não dispomos, ainda, no país. Confiram o que a pesquisadora tem a dizer sobre gênero, ciência e questões raciais]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_20860" class="wp-caption aligncenter" style="width: 560px"><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2017/02/Simone-Marinho-Instituto-Unibanco.jpg"><img class="size-full wp-image-20860" title="Katemari Rosa (Foto: Simone Marinho/ Instituto Unibanco)" src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2017/02/Simone-Marinho-Instituto-Unibanco.jpg" alt="Katemari Rosa (Foto: Simone Marinho/ Instituto Unibanco)" width="550" height="350" /></a><p class="wp-caption-text">Katemari Rosa (Foto: Simone Marinho/ Instituto Unibanco)</p></div>
<p><strong>Agência de Notícias: Como começou sua relação com a física? O que a fez querer se especializar em uma área, que historicamente conta com pouca presença de mulheres, principalmente negras?</strong></p>
<p><strong><a href="http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4739693U1" target="_blank">Katemari Rosa</a>:</strong> Quando eu resolvi fazer Física, eu não pensava nessas questões de qual seria a representatividade de mulheres e de pessoas negras na Física. Eu queria fazer Física desde os meus 8 anos de idade. A razão é porque eu amava Astronomia, amava o que eu achava que era a Astronomia. Gostava de olhar para o céu, para as estrelas, para o universo, o cosmos. Achava aquilo tudo fascinante. Aí, eu descobri que muitos astrônomos têm formação primeiramente em Física. Aí eu disse: É isso que eu vou fazer: Física. Tem o fato de eu gostar dos céus, das estrelas, mas também têm questões de conjuntura, de sorte. Quando eu estava no Ensino Médio, estudei numa escola técnica federal que era dentro do campus da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E o prédio ficava ao lado do planetário. Eu ia muito ao planetário.</p>
<p>Quando eu estava no primeiro ano do Ensino Médio o observatório da universidade também ficava muito próximo. Acontecia um programa de popularização da ciência lá. Tinha uma programação de observação do céu que eu fui algumas vezes. Tinha um programa no Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se chamava Física para Secundaristas e era aberto à comunidade em geral. A gente tinha aulas de Física, fazia experimentos. Eu me inscrevi, fiz esse curso, fiz vários experimentos e acabei aprendendo muita coisa sobre Física. E era um curso gratuito. Esses são fatores que eu considero que contribuíram fortemente para eu me interessar pela área da Física. E as questões sobre a presença ou a ausência de mulheres e pessoas negras na Física não eram coisa que na época eu estivesse preocupada. Eu comecei a me interessar por essas questões quando eu já tinha terminado o mestrado. Foi uma preocupação que foi crescendo com o tempo e por outras questões.</p>
<p><strong>Agência de Notícias: Durante seus anos de estudo e ensino já passou, ou presenciou, situações de preconceito de gênero ou raça?</strong></p>
<p><strong>Katemari Rosa:</strong> Sim, já passei. Já presenciei também. Eu sempre fico incrédula quando pessoas negras ou mulheres dizem que nunca tiveram experiências ou nunca presenciaram situações, respectivamente, de racismo e de sexismo. Porque a gente vive numa sociedade que é racista e machista, e não importa o ambiente em que nós estejamos, vai fazer parte dessa sociedade. Portanto vai estar sujeito a essas mesmas constrições, a esses mesmos problemas que a sociedade de maneira mais ampla enfrenta. No espaço acadêmico a gente vai encontrar isso e na sala de aula. Não há como dissociar. E é claro, eu acho que acontece muitas vezes é que precisa haver uma consciência da nossa condição de mulher na sociedade, de pessoa negra em sociedade, para identificar situações de racismo e de sexismo. E têm várias situações.</p>
<p>Teve uma vez que eu estava num ponto de ônibus em Salvador, uma das cidades com maior percentual de pessoas negras no Brasil. Eu trabalhava em Feira de Santana, na Universidade Estadual de Feira de Santana (<a href="http://www.uefs.br/" target="_blank">Uefs</a>), e estava esperando o ônibus na Garibaldi, de manhã cedo, para o Iguatemi. De lá saía um ônibus que levava professores para a Uefs. Um colega meu pegava o ônibus num ponto anterior me ligou e disse: “Katemari, o ônibus quebrou”. E tinha outra pessoa no ponto também esperando o ônibus, e eu comentei: “Meu colega avisou que o ônibus quebrou”. E a menina que estava no ponto falou: “você vai perder o ônibus?”. Aí eu expliquei que tinha um ônibus da empresa que levava a gente. Ela perguntou onde eu trabalhava e o que eu fazia lá. Eu respondi que era professora na Uefs. E vinha vindo outro ônibus que serviria para mim. Aí ela perguntou: “Você é professora de estudos africanos?”. E foi bem na hora que o ônibus chegou e eu entrei. Não tive nem chance de responder, até porque a pergunta me pegou de surpresa. Porque ela nem me perguntou de quê eu dava aula.</p>
<p>Foi uma surpresa eu ser professora na Uefs. E se eu era professora numa universidade é evidente que a única coisa sobre o que eu podia estar dando aula era de Estudos Africanos. Sobre o quê mais uma mulher negra pode estar dando aula numa universidade, não é? E eu tenho certeza absoluta de que essa pessoa não falou com maldade. Não é necessariamente algo feito com a finalidade de machucar, não é uma questão de ódio, não é isso! É que a nossa cultura é machista, sexista e racista. A gente desenvolve conceitos &#8211; e quando eu digo a gente, eu estou inclusa nisso &#8211; em que mulheres, pessoas homossexuais, pessoas negras têm que ter certos comportamentos, têm que pertencer a determinados espaços. A gente constrói socialmente essas ideias e acaba repetindo sem pensar, muitas vezes, sobre elas.</p>
<p><strong>Agência de Notícias: Durante o mestrado, quando estudou na Universidade Federal da Bahia (<a href="https://www.ufba.br/" target="_blank">UFBA</a>), verificou disparidades de gênero e cor, entre os docentes e discentes?</strong></p>
<p><strong>Katemari Rosa:</strong> Eu sou natural de Porto Alegre, e nunca tinha ido a Salvador.</p>
<p>Quando cheguei fiquei hospedada no Pelourinho, e lembro que eu fiquei super impressionada. Eu nunca tinha visto tanta gente negra junta na minha vida. Eu costumo dizer que nem em churrasco de família eu via tantas pessoas negras como em Salvador. Visualmente é algo que causa um super impacto. Eu estava procurando uma loja, e me disseram para ir ao Shopping Barra, e eu fui. E eu fiquei chocadíssima, porque eu não vi nenhuma pessoa negra lá. Claro que devia ter pessoas negras lá naquele dia, mas a diferença foi tanta que eu não percebi pessoas negras. E a mesma coisa aconteceu quando eu fui para o Instituto de Física, na UFBA. Eu pensei: “Que coisa estranha! Onde é que estão as professora, os professores negros aqui?&#8221;. Tinha o falecido professor Aurino, mas você não via pessoas negras no Instituto de Física. Depois eu vi assim no curso de graduação em maior número, mas na parte docente a disparidade era muito grande. Isso foi uma coisa que eu achei bastante interessante. Que foi algo inclusive que começou a me despertar o interesse em pensar sobre as questões raciais na comunidade científica, particularmente na Física.</p>
<p><strong>Agência de Notícias: Em 2008, a professora <a href="http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4707562D0" target="_blank">Simone Bortoliero</a>, junto com outros pesquisadores, realizou uma pesquisa com estudantes de escolas públicas. O objetivo era averiguar a percepção que eles tinham da ciência e dos cientistas. Ao final verificou-se que a imagem de cientista que eles tinham era estereotipada: homens brancos que usam jalecos, também brancos. O que acha desse resultado? É uma visão geral do brasileiro? Mudou nesses últimos anos?</strong></p>
<p><strong>Katemari Rosa:</strong> Eu acho que essa é uma visão amplamente documentada em pesquisas que olham para a percepção sobre a ciência e cientistas há muitas décadas, e que não é algo que tenha mudado fundamentalmente, nem no exterior nem no Brasil. Há um esforço de que se mude essa visão sobre cientistas, mas é muito difícil porque há um reforço desses estereótipos constantemente, especialmente na mídia. Mas não somente na mídia, na própria escola também. Como eu falei na outra questão, em relação aos preconceitos que a gente tem de gênero e raça, a gente também cultiva preconceitos e ideias em relação à ciência. Essa ideia de que a ciência fala sobre a verdade, de que a ciência é algo imutável, que é objetiva. Essas são visões que a maioria das pessoas compartilha, e que associado a isso têm outras imagens de quem pode fazer ciência.</p>
<p>Quando a gente fala, por exemplo, na questão da objetividade da ciência, de que a ciência é isenta de sentimentos, emoção, essas características combinam muito bem em uma visão sexista de que a mulher é um ser emotivo, passional e que, portanto, não é apto a fazer ciência. Essas são ideias que ajudam a fortalecer o preconceito em relação às mulheres. Outro equívoco é essa visão existencialista de que a mulher é um ser emotivo e que o homem é um ser racional. Essas são fundamentalmente questões de divisão sobre gênero.</p>
<p>E essa questão da ciência falar sempre a verdade acaba ajudando a fazer da ciência a detentora das respostas finais. E isso é utilizado diariamente. A gente pode ligar a televisão a qualquer momento que vai ver propagandas de pasta de dente, de sabão em pó, e vai ter lá um homem de jaleco branco. Pode ter propaganda de qualquer coisa que vai ter lá “comprovado cientificamente”. O que é comprovado cientificamente nessa ideia é o que não pode ser contestado, porque a ciência fala sobre a verdade. A gente vê constantemente na televisão imagens de homens brancos, vestindo jalecos brancos, às vezes de óculos, de idade mais avançada, cabelos grisalhos. A visão de que a ciência é algo que é feito em laboratório, que utiliza vidrarias. A gente está numa sociedade que fica reforçando esses estereótipos o tempo todo. O resultado dessa pesquisa não me surpreende e eu diria que se essa pesquisa fosse refeita hoje em 2017, os resultados seriam similares.</p>
<p><strong>Agência de Notícias: Percebemos que são poucos os pesquisadores que se dispuseram a pesquisar sobre a participação do negro na ciência, principalmente das mulheres negras. Porque optou por esse ramo de pesquisa?</strong></p>
<p><strong>Katemari Rosa:</strong> Pra essa história fazer sentido, eu tenho que contar bem do comecinho. Que eu sou natural de Porto Alegre, uma cidade onde a gente tem uma maioria de pessoas que se autodeclaram brancas. Vivi boa parte da minha vida lá, fiz meu ensino fundamental, médio, graduação naquela cidade. No mestrado eu fui pra Salvador, uma cidade cuja maioria da população se autodeclara negra. E pra mim foi um choque, é uma diferença muito grande. A gente vê muitas pessoas negras em Salvador. E é uma delícia, uma coisa muito bacana. E aí, quando eu entrei no Instituto de Física da UFBA tomei um susto. Porque eu não vi a mesma representação que eu vi nas ruas da cidade. Aí eu comecei a pensar, que coisa estranha! Porque eu também não via pessoas negras no Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Entretanto, o percentual de pessoas negras em Porto Alegre é menor, em torno de 20%. E em Salvador cerca de 80% se autodeclara negra.</p>
<p>Depois eu terminei o mestrado, estava trabalhando na Uefs, e tinha uma estudante que queria fazer a monografia dela sobre mulheres na Física. Eu era orientadora dela e comecei a estudar sobre o tema. E lá pelas tantas eu comecei a pensar, e as mulheres negras na Física? E as pessoas como eu? Eu sou uma mulher negra e estou na Física. Onde é que a gente está? Como é isso? Fui fazer uma revisão da literatura e eu vi que não havia absolutamente nenhum trabalho no Brasil falando sobre essas questões. Olhei nos periódicos que tratavam sobre ciências, sobre ensino, sobre educação, sobre estudos culturais, sobre gênero, e não encontrava nada. Isso em 2007. E foi aí que eu comecei a pensar sobre essas questões, sistematicamente, a pesquisar sobre a participação das mulheres negras na Física.</p>
<p><strong>Agência de Notícias: Vi em seu currículo <em>lattes</em> que iniciou a pesquisa &#8220;Contando nossa história: negras e negros nas ciências, tecnologias e engenharias no Brasil&#8221; para a criação de uma plataforma digital. Pode falar um pouco sobre o projeto?</strong></p>
<p><strong>Katemari Rosa:</strong> Esse é um projeto que eu escrevi no final de 2015. Pensar sobre já vinha de mais tempo, mas sentar para escrever só em 2015. Aí eu o submeti ao Edital Universal do CNPQ no início de 2016, e levei a ideia para o Encontro de Historiadores e Historiadoras da Ciência do Instituto Americano de Física. O que é esse projeto então? Uma das formas de se fazer história em geral é através da história oral. E a minha intenção é construir um banco de história oral, um acervo brasileiro que traga as histórias de cientistas negras e negros aqui do Brasil. O banco é um repositório onde a gente guarda entrevistas feitas para se saber da história da vida toda de uma pessoa. São longas entrevistas, mais de uma sessão com uma única pessoa. É o modo que temos hoje de construir a história, de compreender episódios, cenários, tanto do país quanto de instituições, dos próprios conceitos científicos, às vezes. Nós coletamos os dados através da memória das pessoas. A gente não tem no Brasil algo desse tipo, se tratando de ciência. E a minha intenção de fazer isso é pela ciência, mas não só pela ciência, mas pela ciência feita por pessoas negras.</p>
<p>Eu acho que esse é um trabalho necessário em termos de construção da nossa identidade nacional enquanto brasileiras e brasileiros que temos origem na história da população negra. Essa é uma parte desse projeto, construir um banco de história oral. A parte inicial desse projeto é identificar quem são esses cientistas, onde estão os cientistas e as cientistas negros do Brasil, depois coletar essas entrevistas e, a partir dessas entrevistas, criar materiais didáticos que possam ser utilizados tanto em salas de aula e na construção de sequências didáticas, utilização pela mídia.</p>
<p><strong>Agência de Notícias: Em conversa com a professora <a href="http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4786250U6" target="_blank">Suani Pinho</a>, do Instituto de Física da UFBA, ela se mostrou bastante decepcionada com a pouca evolução da participação feminina, principalmente da mulher negra, no Instituto de Física da UFBA. Seja como estudantes, professoras ou ocupando cargos de liderança. Vocë, como pesquisadora da temática, acha que essa é uma particularidade da Bahia ou também se reflete no restante do país?</strong></p>
<p><strong>Katemari Rosa:</strong> Eu acredito, não no sentido de fé, mas também de olhar para os dados, que esse é um problema nacional. A professora <a href="http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4781480T6" target="_blank">Márcia Barbosa</a> tem um estudo que mostra que a gente tende a pensar que hoje tem muitas mulheres fazendo coisas que antes eram feitas pelos homens, de que as coisas estão melhorando. Claro que não tem como saber o que vai acontecer no futuro, mas eu posso olhar o que está acontecendo no presente e quando a gente pega os números e olha, vê que não é verdade. Os números não têm melhorado. A gente não está tendo mais mulheres na Física. Isso segue sendo um problema. Não tem uma evolução.</p>
<p>Sobre as mulheres negras, eu nem sei dizer. Porque a gente tem um problema de coleta de dados também. Essa questão racial é algo muito recente, no sentido de coleta de dados no Brasil. Em relação à comunidade acadêmica. Foi em 2013 que o CNPq colocou o box “raça” no currículo lattes, onde são coletados os dados de todos os pesquisadores e pesquisadoras do Brasil. E por onde a gente constrói os censos da comunidade científica brasileira. No final de 2015, foi a primeira vez que o CNPq teve dados em que a questão racial esteve presente.</p>
<p><strong>Agência de Notícias: O que você sugere para que esse quadro de desigualdade mude?</strong></p>
<p><strong>Katemari Rosa:</strong> Nós precisamos de políticas públicas de inserção de mulheres e de pessoas negras nas ciências. Precisamos de políticas públicas para se garantir que as pessoas desses grupos sub-representados consigam permanecer quando entrarem nas universidades e tenham sucesso nos cursos. Políticas também para que esses grupos tenham sucesso nas suas carreiras profissionais, tenham possibilidade de ascensão profissional. Não basta nós ampliarmos o acesso de mulheres negras, de pessoas indígenas, dos grupos que estão sub-representados na ciência de maneira geral, a gente precisa trabalhar também pela permanência e pela ascensão.</p>
<p>Ações como o edital de 2015, do Governo Federal, solicitando a pesquisadores e pesquisadoras que fizessem propostas de trabalhos voltados para a inserção de meninas e jovens nas ciências. Uma política pública de incentivo ao ingresso de mulheres na Ciência. Isso gerou muita repercussão, muitos trabalhos e um movimento na comunidade científica para olhar para essa questão. Havia cientistas que nunca tinham parado para pensar nessa questão, e que eventualmente começaram a contribuir com iniciativas. Se nós deixarmos apenas pelo curso natural das coisas nada muda. É preciso ter intervenção pública, política. E quando eu digo isso não significa somente em termos de Governo Federal, essa intervenção política se dá também em ações de empresas privadas. Por exemplo, o Instituto Unibanco tem o Programa Elas nas Exatas, que tem um financiamento para ações que visam fazer a inserção de mulheres nas ciências exatas, engenharias, computação.</p>
<p>As políticas não são apenas públicas, podem ser privadas, mas é preciso haver ação. A gente tem visto ao longo da história que apenas esperar que as pessoas comecem a mudar sua visão, não vai acontecer. A gente precisa também de ações afirmativas. Bolsas de pesquisa específicas para grupos sub-representados, editais, projetos focados nesses grupos, isso é ação afirmativa. Precisamos dessas ações, senão não muda o quadro.</p>
<p><strong>Agência de Notícias: O que você espera da ciência e da universidade no futuro?</strong></p>
<p><strong>Katemari Rosa:</strong> Digamos que o que eu espero da ciência e da universidade é o que eu espero das pessoas, da sociedade, é o que eu espero de mim. Que nós, enquanto seres humanos, consigamos ter mais empatia, pensar no outro, independentemente de quem seja o outro. Ter uma sociedade mais empática num sentido global, não num sentido só do meu bairro, só da minha cidade, só do meu país. Pensar no mundo, no ser humano, na natureza, neste planeta. Pensar recursos naturais, nas divisões sociais, no papel da economia, no papel político. Eu sou um pouco pessimista nesse sentido. Eu não espero que em médio/ longo prazo as nossas universidades sejam melhores, em termos de serem mais abertas, mais humanas e mais inclusivas. Não tenho muito essa esperança. Essas são situações meio utópicas, mas eu acho que a gente tem que trabalhar constantemente, diariamente para que as coisas melhorem, para que fiquem com ambientes de menos opressão para todo mundo. Mas é só isso que eu acho que posso fazer.</p>
<p>Uma das perspectivas com as quais eu trabalho é a “perspectiva crítica da raça”, e um dos postulados dessa teoria, que quando eu falo sempre brinco que parece algo pessimista, mas é uma coisa que me move. Esse postulado é de que o racismo é algo presente na nossa sociedade, é algo estrutural, então eu não preciso ter pessoas racistas para que o sistema seja racista, para que exista opressão para pessoas negras, e não vai mudar. Eu acho que nós estamos melhores hoje, enquanto humanidade, conquistas que nós tivemos do ponto de vista social, biológico, histórico, econômico. A gente tem evoluído muito ao longo dos séculos. E tende a evoluir mais. Mas eu não acho que a gente vai se livrar dos problemas que têm.</p>
<p><em><em>*Estudante do curso de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da UFBA e repórter da Agência de Notícias em CT&amp;I – Ciência e Cultura</em></em></p>
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		<title>Prêmio destaca o papel da mulher na Ciência</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Jan 2017 21:59:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pesquisador</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A parceria entre FAPESB, SECTI e SPM premiará seis pesquisadoras na Bahia]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p dir="ltr">
<p>Pesquisadoras e jovens cientistas que se destacam nas áreas de Ciências Exatas e da Terra, Engenharias e Ciências Biológicas serão reconhecidas e homenageadas através do Prêmio Bahia pela Diversidade &#8211; Edição Mulheres na Ciência. A iniciativa é da Fundação de <a href="http://www.fapesb.ba.gov.br/" target="_blank">Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia</a> (FAPESB), em parceria com a <a href="www.secti.ba.gov.br/" target="_blank">Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado da Bahia</a> (SECTI) e com a <a href="www.mulheres.ba.gov.br/" target="_blank">Secretaria Estadual de Políticas para Mulheres da Bahia</a> (SPM).</p>
<p dir="ltr">No Brasil, o número de mulheres em grupos de pesquisa tem aumentado de forma significante. Entretanto, especificamente nas Ciências Exatas, da Terra, Engenharias, denominadas ciências duras, e nas Ciências Biológicas, ainda existe uma discrepância maior de gênero. O diretor-presidente da FAPESB, Eduardo Almeida, destaca a necessidade da presença de mulheres nestes campos do conhecimento. Segundo ele, “uma das formas que podem contribuir com a atração de novas pesquisadoras, além de valorizar as que já atuam, é ter uma premiação reconhecendo tanto as cientistas com maior grau de senioridade, como jovens pesquisadoras de destaque”, explica.</p>
<p dir="ltr"><strong> </strong></p>
<div id="attachment_20774" class="wp-caption aligncenter" style="width: 413px"><strong><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2017/01/cientista.jpg"><img class="size-large wp-image-20774  " title="cientista" src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2017/01/cientista-1024x682.jpg" alt="" width="403" height="268" /></a></strong><p class="wp-caption-text">Foto: Reprodução</p></div>
<p><strong>Seleção</strong> &#8211; O processo de seleção das pesquisadoras passará pela consulta pública, aberta à comunidade para as indicações das cientistas, e pelo enquadramento, no qual um Comitê Gestor, composto por membros da FAPESB, SECTI e SPM, checarão se os critérios de elegibilidade explicitados no edital foram atendidos. Em seguida, pesquisadores especialistas de fora da Bahia avaliarão os Currículos Lattes das indicadas. Por fim, um Comitê Julgador, composto por no máximo cinco especialistas das grandes áreas premiadas, definirá as seis pesquisadoras vencedoras. A premiação ocorrerá no dia 08 de março.</p>
<p dir="ltr">As cientistas de destaque (uma de Ciências Exatas e da Terra e Engenharias e uma de Ciências Biológicas), com doutorado há oito anos ou mais, receberão R$ 15.000,00 cada. Para as jovens pesquisadoras (duas de Ciências Exatas e da Terra e Engenharias e duas de Ciências Biológicas), doutoras ou mestras há menos de oito anos, será concedida uma quantia de R$ 5.000, 00 cada.</p>
<p dir="ltr">Para a assessora técnica da Diretoria de Inovação e Inclusão da SECTI, Juliana Fajardini, os efeitos da premiação podem ultrapassar o ambiente acadêmico. “Isso fomenta a conversa, a discussão, coloca mais pessoas para pensarem no assunto. Até a cerimônia de premiação, e mesmo depois, com a divulgação do perfil das vencedoras, a ideia é que consigamos alcançar um maior número de pessoas, para gerar mais impacto”, afirma.</p>
<p dir="ltr">
<div id="attachment_20773" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2017/01/Bahia-Pela-Diversidade.png"><img class="size-medium wp-image-20773" title="Bahia Pela Diversidade" src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2017/01/Bahia-Pela-Diversidade-300x178.png" alt="" width="300" height="178" /></a><p class="wp-caption-text">Slogan Prêmio Bahia pela Diversidade - Edição Mulheres na Ciência</p></div>
<p>No fomento à valorização da ciência, a FAPESB também dispõe do Prêmio Roberto Santos. A premiação anual homenageia pesquisadores seniores de diferentes áreas. Segundo Almeida, esse é mais um prêmio de incentivo para a comunidade científica. “Faz todo sentido reconhecer os pesquisadores, que mesmo com a escassez de recursos e de infraestrutura nas universidades e nos centros de pesquisa, formam alunos, contribuem com a comunidade científica, levam suas soluções para o mercado e promovem impacto na sociedade”, defende.</p>
<p><em>*Estudante do curso de Jornalismo da Faculdade de Comunicação e repórter da Agência de Notícias em CT&amp;I &#8211; Ciência e Cultura UFBA</em></p>
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		<title>Salete Maria da Silva</title>
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		<pubDate>Mon, 10 Oct 2016 17:00:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pesquisador</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Ufba]]></category>

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		<description><![CDATA[Autora do recente o livro A carta que elas escreveram, baseado em sua tese de doutorado,  professora Salete Maria da Silva, pesquisadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (NEIM-UFBA), falou com exclusividade à repórter Rebeca Almeida da Agência de Notícias em CT&#038;I – Ciência e Cultura sobre o atual cenário político brasileiro e a participação das mulheres pouco tempo depois dos resultados das eleições municipais de 2016 e no período em que a Constituição Federal de 1988 completa 25 anos. Data considerada como de grande importância e na qual a luta feminina se fez muito presente apesar de pouco reconhecida
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p dir="ltr"><strong>Ciência e Cultura &#8211; A senhora poderia fazer uma breve análise das eleições municipais deste ano, tendo como foco a aplicabilidade da Lei 12.034/09 e quais mecanismos estão sendo trabalhados para que a cota seja mais tendência e menos um obrigação partidária e eleitoreira?</strong></p>
<p><strong>Salete Maria</strong> &#8211; Ainda é muito cedo pra fazer uma análise completa, porque alguns municípios ainda vão para segundo turno. Mas de um modo geral, ela repete uma realidade que já vem acontecendo no Brasil em outra eleições. Na Bahia nós temos três municípios em que somente mulheres concorreram entre si, no entanto quando se analisa o perfil dessas mulheres, percebe-se que elas não têm necessariamente uma trajetória política ou envolvimento com movimentos sociais. Em sua maioria são mulheres que estão ali por delegação, transferência de poder, uma vez que são esposas, filhas ou parentes de lideranças masculinas que foram impedidas inicialmente ou que já tinham concorrido a própria reeleição. Então mais uma vez as mulheres acabam de algum modo sendo convocadas quando os homens não podem. Não necessariamente os partidos reconhecem nelas lideranças ou sujeitos políticos capazes de enfrentar as candidaturas. Eu avalio que nós ainda continuamos com um déficit de gênero, do ponto de vista da democracia. Os últimos dados apontam que as mulheres não passam de 11% das prefeitas eleitas de todo Brasil, algo em torno de 600 mulheres. Já os homens são quase 88% dos eleitos. O quadro é de reforço da dominação masculina no campo da política. É uma manifestação ainda do patriarcado. Eu diria que apesar dos nossos esforços políticos e jurídicos, das conquistas, da Lei de Cotas, os partidos se vêem obrigados a cumprir a lei mas não estão convencidos, em sua maioria, da importância de buscar a igualdade de gênero.</p>
<p><strong>Ciência e Cultura &#8211; Acredita que de alguma forma o cenário político nacional influenciou o resultado das eleições municipais?</strong></p>
<p><strong>Salete Maria</strong> &#8211; Eu avalio que nós estamos sofrendo um retrocesso justamente porque o quadro geral já apontava para isso, com o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Do ponto de vista de gênero, o modo como os políticos e mesmo as pessoas em geral nas redes sociais, se referiam a presidenta, ao fazer críticas ao governo, se dava de forma bem diferente de quando se critica um político homem. Havia muita misoginia. As pessoas não respeitavam a pessoa dela, sua vida pessoal e em alguns momentos até sua vida afetiva e sexual. Então esse quadro mais geral acabou influenciando nas eleições. Porque se a primeira mulher a chegar na presidência da República sofre um impeachment, isso gera munição para que se interprete, de maneira irresponsável, que as mulheres não são aptas para política. Então isso vai produzindo um efeito cascata, se reproduzindo em outros espaços.</p>
<p><strong>Ciência e Cultura &#8211; De que forma essa desigualdade dentro da política poderia ser revertida?</strong></p>
<p><strong>Salete Maria </strong>- Primeiro os partidos tem que cumprir a lei integralmente. Isso implica dizer que, além de apenas apresentar as candidatas mulheres nas vésperas da eleição, muitas vezes com candidatas “laranjas”, é preciso que os partidos invistam na capacitação e formação das políticas brasileiras. A política de gênero tem que atravessar, transversalizar toda política partidária. Um partido que cumpre a Lei de Cotas já reconhece a importância das mulheres nos diretórios. Eu penso também que devemos criar novas estratégias. A mais importante delas seria o monitoramento da lei de cotas, para evitar as candidaturas laranjas, a candidatura de mulheres a pretexto de cumprir a cota mas também como um escudo para proteger homens. Precisamos evidenciar também que as mulheres cheguem ao poder mas não são empoderadas, entende? As mulheres não têm autonomia, em muitos casos, para decidir e nos bastidores os homens estão movimentando as teclas desse tabuleiro. Eu percebo que nós precisamos pontuar muitos avanços do ponto de vista legal, do ponto de vista político, mas até hoje nós só tivemos uma experiência sofrível com uma mulher na presidência da República e nem com ela chegamos à cota de 50% de mulheres nos ministérios. E a paridade nem é justa, pois se somos maioria da população, nós teríamos que ter maioria dos ministérios…</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;" dir="ltr"><em><strong>“Eu diria que apesar dos nossos esforços políticos e jurídicos, das conquistas, da Lei de Cotas, os partidos se vêem obrigados a cumprir a lei mas não estão convencidos, em sua maioria, da importância de buscar a igualdade de gênero.”</strong></em></p>
</blockquote>
<p style="text-align: left;" dir="ltr"><span style="font-weight: bold; font-style: normal;">Ciência e Cultura &#8211; Pode falar um pouco mais sobre a “formação política das mulheres”?</span></p>
<p><strong>Salete Maria</strong> &#8211; É necessário uma formação permanente, um investimento pesado do ponto de vista político, do ponto de vista qualitativo da formação das mulheres. Também, um investimento econômico, porque logo quando elas se colocam como candidatas, os recursos partidários são muito insignificantes. Se você olhar material de campanha de candidatos homens e de candidatas mulheres, de um mesmo partido, inclusive nas esquerdas, você vai perceber uma diferença muito grande. Inclusive tem uma diferença intra genérica, entre as próprias mulheres dentro dos partidos. Por exemplo, determinadas categorias de mulheres, como mulheres lésbicas, negras, trans, velhas, ou seja aquelas que socialmente são mais vulneráveis, quando se candidatam elas também não recebem do partido o mesmo tratamento que as mulheres brancas heterosexuais, que dentro desse contexto, gozam de um certo “privilégio” &#8211; privilégio entre aspas porque o patriarcado não dá privilégio para mulheres, mas ele as divide entre si. Então em síntese, a formação política com a perspectiva de gênero precisa dar formação para que se perceba que mulheres e homens têm necessidades e especificidades diferentes. Além disso é preciso incentivar essas mulheres a assumirem postos importantes dentro dos partidos, respeitar a vontade dessas ao quererem ou não se candidatar. Não sei se você lembra, mas em 2014, um dos primeiros slogans era “vamos eleger Dilma com a força de Lula”, então nada mais patriarcal. Então, que as mulheres tenham voz ativa nos partidos, que elas possam falar ao longo dos anos e, independente das eleições, que elas possam aparecer, que os partidos tenham cotas internas pois para respeitar a cota parlamentar é preciso respeitar a interna. É preciso radicalizar a democracia dentro dos partidos, para depois poder lutar pela democracia de uma forma mais geral.</p>
<p><strong>Ciência e Cultura &#8211; A senhora acredita que a sanção para o não cumprimento da lei é muito branda?</strong></p>
<p><strong>Salete Maria </strong>- Sim, eu acredito que a legislação não prevê um ônus, não prevê uma sanção que, por exemplo, tire do ar o programa do partido, uma multa pecuniária ou que o partido possa perder determinadas regalias do ponto de vista da Justiça Eleitoral. Ela é muito branda porque prevê sanções (o Ministério Público pode chamar, orientar,  sugerir&#8230;) mas falta um monitoramento. Os movimentos sociais também precisam monitorar os partidos políticos. O problema é que no Brasil os movimentos sociais são muito atrelados e dependentes dos partidos. Percebe-se, quando se conversa com as mulheres que atuam no mundo da política, que muitas vezes a crítica é feita apenas internamente, para blindar o partido da crítica pública. Por exemplo, elas denunciam que nas últimas eleições os partidos não tem feito convenções como deveria ser, com prévias eleitorais. Os “caciques”, os “donos do partido”, que definem as candidaturas e, em via de regra, coincidentemente ou não, essas candidaturas são masculinas e brancas. As mulheres são chamadas para ficar na retaguarda.</p>
<p><strong>Ciência e Cultura &#8211; Como assim na retaguarda?</strong></p>
<p><strong>Salete Maria </strong>- Por exemplo, na penúltima eleição para prefeitura de Salvador, duas mulheres importantíssimas, altamente competentes, respeitadas não só em Salvador mas na Bahia inteira, Célia Sacramento e Olívia Santana, ficaram como vices de seus respectivos candidatos, ou seja, ficaram na retaguarda como se elas não tivessem capacidade para estar na cabeça. Existe um chamado teto de cristal, um conceito que diz que as mulheres conseguem se desenvolver até um certo momento e aí essa barreira invisível as impede de ascender. Ou seja, não podem ser além de vices. Quando a gente fala de democracia, a gente fala tanto de uma perspectiva quantitativa quanto qualitativa. E nós, quantitativamente, estamos perdendo esse jogo. Qualitativamente nem se fala.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;" dir="ltr"><strong>“Nós temos um déficit não só da participação das mulheres no poder, nós temos um déficit de conhecimento sobre a participação dessas mulheres.”</strong></p>
</blockquote>
<p style="text-align: left;"><strong>Ciência e Cultura &#8211; De que forma a Universidade pode contribuir ou tem contribuído para a diminuição dessa desigualdade?</strong></p>
<p><strong>Salete Maria </strong>- Nós temos um déficit não só da participação das mulheres no poder, nós temos um déficit de conhecimento sobre a participação dessas mulheres. Estou falando poder institucional, que é aquele que determina o destino de todas as pessoas. Precisamos de mais pesquisa para conhecer não só o movimento dessas mulheres, sua atuação dentro dos poderes executivos e judiciário. Também não só delas enquanto grupo, mas também como indivíduo. Michelle Bachelet, que foi presidente do Chile, dizia o seguinte: “Quando uma mulher entra na política ela se transforma. Mas quando várias mulheres entram na política, elas transformam a política”. Nós precisamos de mais pesquisas para compreender como uma mulher consegue entrar na política. Como que ela lida com essa estrutura, quando adquire consciência de gênero, como que se movimenta, se articula. Enfim, como ela ganha esse jogo ou resiste. Podemos fazer um estudo histórico dessas questões, mas também pode-se fazer um estudo relacionado com a cidadania subjetiva, como esse sujeito se percebe como um sujeito de direito, um sujeito político… Precisamos de muitas pesquisas para compreender porque muitas vezes partidos atropelam os interesses dessas mulheres e elas acabam traindo suas bases. Precisamos revelar como é complexa essa relação das mulheres com o poder, porque este ainda é hegemonicamente masculino e elas acabam muitas vezes sendo sugadas nessa estrutura e suas vozes são diluídas, silenciadas, apagadas… Se as pesquisas se propõem analisar criticamente esse movimento poderão nos dar elementos para sabermos como os movimentos sociais podem incidir de forma a pressionar o poder para que ele perca seu aspecto patriarcal. Ultimamente o foco dos estudos tem sido a questão da violência, que é um outro tipo de poder, nas relações interpessoais. É importante também que tenham essas pesquisas.</p>
<p><strong>Ciência e Cultura &#8211; Qual é o foco do seu trabalho?</strong></p>
<p><strong>Salete Maria</strong> &#8211; Eu trabalho com o conceito de violência e política contra as mulheres. Ou seja, aquelas condutas, ações ou omissões que constrangem, desestimulam as mulheres a participarem da política. São situações que, através de discursos misóginos, são consideradas incapazes, impotentes, etc. Ou são encorajadas a se assemelhar aos homens. Muitas mulheres quando se elegem mudam de comportamento e de temperamento para serem notadas. Por exemplo, durante a campanha eleitoral de 2014, quando a candidata Marina chorou a própria candidata Dilma advertiu: “se você quer ser presidente da república você tem que esconder a emoção”. Assim, acaba-se reforçando estereótipos de gênero, como se o lugar do poder não fosse o lugar do sentimento, da emoção, da afetividade e etc.</p>
<p><em>*Estudante do curso de Comunicação Social &#8211; Jornalismo na Faculdade de Comunicação da Ufba e estagiária da Agência de Notícias em CT&amp;I &#8211; Ciência e Cultura e da Agência Experimental </em></p>
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		<title>Invisibilidade do emprego doméstico na produção intelectual</title>
		<link>http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/noticias/mesa-redonda-discute-a-invisibilidade-do-emprego-domestico-na-producao-intelectual/</link>
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		<pubDate>Sat, 17 Sep 2016 01:06:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ciencia e Cultura</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O silêncio sobre o trabalho doméstico nas produções intelectuais foi tema de um dos debates do II Seminário Regional do Emprego Doméstico. A discussão também teve reflexões acerca do racismo institucional, da carência de questões de gênero e etnia nos currículos escolares e nas produções acadêmicas  ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;">“A produção intelectual sobre o emprego doméstico: a violência da ausência”,  foi tema de II Seminário Nacional do Emprego Doméstico, realizado no Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO), no Largo Dois de Julho, em Salvador. A discussão dessa mesa tratou do trabalho doméstico e da invisibilidade das temáticas raciais nas produções acadêmicas.</p>
<p style="text-align: left;">A assistente social Claudia Veronese, da <a href="https://www.google.com.br/url?sa=t&amp;rct=j&amp;q=&amp;esrc=s&amp;source=web&amp;cd=1&amp;cad=rja&amp;uact=8&amp;ved=0ahUKEwjIyvm8w5_PAhWHi5AKHZxPAFQQFggdMAA&amp;url=http%3A%2F%2Fwww.ufpb.br%2F&amp;usg=AFQjCNGJzh6lSzXcAwRR2HHeU0acLSQIOQ&amp;sig2=eY6DOEcDG4dEc57LFZvLaA&amp;bvm=bv.133387755,d.Y2I" target="_blank">Universidade Federal da Paraíba</a> (UFPB), iniciou o debate fazendo uma breve exposição de sua pesquisa sobre os avanços e desafios gerados pela <a href="http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/emendas/emc/emc72.htm" target="_blank">PEC 72/2013</a>, que regulamenta o serviço doméstico. Para ela, apesar de promover algumas conquistas, a emenda contribuiu para que o trabalho doméstico desregulado e precário se transformasse em uma precariedade regulada. “A fiscalização do trabalho é frouxa e muitos direitos das domésticas, tais como a insalubridade, não foram contemplados”, declara.</p>
<p style="text-align: left;">A historiadora Maria Aparecida Sanches abordou como as questões raciais e de gênero são silenciadas desde a escola. Segundo ela, as poucas produções acadêmicas voltadas para esses assuntos não chegam aos estudantes do ensino fundamental e médio. “Ficam só enchendo currículo”, conclui.</p>
<p style="text-align: left;">A mesa também foi composta pela mestranda em direito Gabriela Ramos. Para ela, os estudos raciais estão defasados no meio jurídicas. “São a ferida aberta do Direito”, atesta. A pesquisadora afirma ainda que há um abismo entre a realidade e as leis, dessa forma, as pesquisas do direito só conseguirão promover justiça social se estiverem ligadas a outras áreas do conhecimento.</p>
<p style="text-align: justify;">
<div id="attachment_20350" class="wp-caption aligncenter" style="width: 501px"><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2016/09/WhatsApp-Image-2016-09-16-at-21.50.43-1.jpeg"><img class="size-full wp-image-20350 " title="WhatsApp Image 2016-09-16 at 21.50.43 (1)" src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2016/09/WhatsApp-Image-2016-09-16-at-21.50.43-1.jpeg" alt="" width="491" height="311" /></a><p class="wp-caption-text">Na platéia, estavam empregadas domésticas e pessoas da comunidade acadêmica</p></div>
<p style="text-align: left;"><span style="text-align: justify;">A presidente do Sindicato das Empregadas Domésticas de Macapá, Olendina Nunes, estava presente e relatou que nessas reuniões fica feliz por ter acesso a tantas informações sobre seus direitos. Por outro lado, confessa que encontra muitas dificuldades na hora de aplicá-las.</span></p>
<p style="text-align: left;">O evento, mediado por Elizabete Pinto, contou também com contribuições das integrantes do Núcleo de Estudos e Pesquisas de Gênero, Raça e Etnia (NEPGREG) Juliana Ramos e Dandara Pinho.</p>
<p style="text-align: left;"><em>* Estudante da Faculdade de Comunicação da UFBA e estagiária da Agência de Notícias em CT&amp;I &#8211; Ciência e Cultura</em></p>
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		<title>Clebemilton Nascimento</title>
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		<pubDate>Sat, 15 Jun 2013 00:53:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pesquisador</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Clebemilton Nascimento]]></category>
		<category><![CDATA[EDUFBA]]></category>
		<category><![CDATA[Emile Conceição]]></category>
		<category><![CDATA[Émille Cerqueira]]></category>
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		<category><![CDATA[Lei antibaixaria]]></category>
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		<description><![CDATA[Clebemilton Nascimento é graduado em Letras com Inglês. Atraído por uma necessidade de estudar questões relacionadas a gênero, e se sentindo preso ao ambiente restrito imposto por Letras, para a discussão desses interesses, resolveu se refugiar no NEIM (Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher da UFBA). Lá encontrou o espaço que precisava para tratar com mais liberdade sobre um tema que lhe agrada, a mulher. Especializou-se em Metodologia e Prática de Ensino em Gênero, lecionou em algumas disciplinas, e também se tornou mestre em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo com a pesquisa Entrelaçando corpos e letras: representações de gênero no pagode baiano. Dissertação que em 2012 foi publicada pela EDUFBA com o título Pagodes baianos: entrelaçando sons, corpos e letras. E é nesse ambiente de interseção entre gênero e musicalidade que ele fala sobre o pagode baiano. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_13580" class="wp-caption aligncenter" style="width: 209px"><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2013/06/JF_ClebemiltonNascimento_DanielSilveira-22.jpg"><img class="size-medium wp-image-13580" title="Foto: Daniel Silveira" src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2013/06/JF_ClebemiltonNascimento_DanielSilveira-22-199x300.jpg" alt="Foto: Daniel Silveira" width="199" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Foto: Daniel Silveira</p></div>
<p><strong>Agência de Notícias &#8211; Sua <a href="https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/6438/1/disserta%c3%a7%c3%a3o%20clebemilton.pdf" target="_blank">pesquisa</a> sobre as relações de gênero presentes nas letras de pagodes baianos foi pioneira na temática. Por que, mesmo sem possuir formação musical e sem ter um outro trabalho de pesquisa para se basear, você escolheu essa linha de pesquisa?</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><a href="http://lattes.cnpq.br/1415079739110248" target="_blank"><strong>Clebemilton Nascimento</strong></a> &#8211; Eu estava interessado em estudar a linguagem e sua intersecção com a cultura, então eu escolhi a música por ser um campo ainda pouco explorado, principalmente a partir do viés das relações de gênero. Queria tentar compreender os processos pelos quais a mulher passa a ser a temática mais explorada pelos compositores das letras de pagode, não estava interessado na origem, mas nas trocas e trânsitos, nas mediações e midiatização que possibilitaram sua formação enquanto produto cultural contemporâneo. Meu interesse era compreender as<br />
representações da mulher, forjadas pelos compositores, a propósito, todos homens.<br />
<strong> </strong></p>
<p><strong>Agência de Notícias &#8211; Percebe-se que o seu discurso acerca do pagode baiano foge do preconceito presente no censo comum.  Qual a visão que você tem acerca do pagode baiano?<br />
</strong><strong> </strong></p>
<p><strong>Clebemilton Nascimento &#8211; </strong>Essa definitivamente não é uma música para contemplação, as pessoas não conseguem entender isso. O pagode é, acima de tudo, uma “forma de comunicação” de jovens negro-mestiços e está inserido em um amplo processo de inscrição, reconstrução e manutenção das expressões culturais das margens, vozes que, de alguma maneira, rompem a narrativa do sujeito colonial. Obviamente que há um esvaziamento político das letras, mas o fato é que a entrada das atuais bandas de pagode no cenário musical contemporâneo aconteceu através de um discurso conservador, uma reação antifeminista extremamente perigosa cujo efeito danoso foi ganhando força e se traduz em várias formas de violência, impactando principalmente nas mulheres, nos homossexuais e naqueles sujeitos à margem dos discursos hegemônicos.<br />
<strong> </strong></p>
<p><strong>Agência de Notícias &#8211; Após a conclusão de sua pesquisa e o lançamento do livro <a href="https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/7902/1/Pagodes_baianos_RI.pdf" target="_blank">Pagodes baianos: entrelaçando sons, corpos e letras</a>, você já verificou mudanças nas opiniões contrárias ao pagode? Ou pelo menos uma visão menos preconceituosa em relação ao estilo musical?</strong><strong><br />
</strong><strong> </strong></p>
<p><strong>Clebemilton Nascimento &#8211; </strong>É difícil mensurar a recepção da pesquisa. O que posso afirmar é que todo o esforço da publicação foi de apresentar uma leitura que rompe com uma visão rasteira e preconceituosa sobre o pagode da Bahia e especialmente busca compreender as relações de poder forjadas na sua trama. Busco uma via de entendimento, sem juízos e de valor, construída a partir de suas condições de produção. Em minha opinião, achar que faço uma crítica, com o objetivo de desqualificar, demonstra um preconceito velado e principalmente um desconhecimento da sociedade híbrida na qual estamos inseridos.<br />
<strong> </strong></p>
<p><strong>Agência de Notícias &#8211; Visto que a Bahia é uma terra tão musical e o pagode baiano é um estilo que vem crescendo muito, em sua opinião, porque o tema é tão pouco abordado nas universidades, principalmente as baianas?<br />
</strong><strong> </strong></p>
<p><strong>Clebemilton Nascimento &#8211; </strong>Eu diria que de modo geral a música não é uma prioridade, um objeto de destaque nos Estudos Culturais, nem tão pouco nos estudos de gênero e suas intersecções com outros marcadores sociais nas universidades brasileiras. Conhecemos muito pouco sobre esse tema, sobre esses sujeitos e acho que ainda não aprendemos a fazer análises que articulem as categorias de classe, raça/etnia, gênero e sexualidades com as questões da cultura, seja no âmbito das Ciências Sociais como em outros campos.  Quando iniciei minha pesquisa eu parti do nada, não havia nenhum estudo mais vertical sobre o assunto. Nos últimos anos venho observando um interesse maior de jovens pesquisadores pelo tema e no surgimento de dissertações e teses.<br />
<strong> </strong></p>
<p><strong>Agência de Notícias &#8211; Na pesquisa, Entrelaçando corpos e letras: representações de gênero no pagode baiano, você trata o pagode como um produto de cultura híbrido. Por quê?<br />
</strong><strong> </strong></p>
<p><strong>Clebemilton Nascimento &#8211; </strong>O pagode baiano é híbrido na medida em que se conecta com outros ritmos negros de outras culturas como o funk, o Hip Hop, o Rap, está tudo misturado, hibridizado. Enfim, o pagode produzido na Bahia é heterogêneo, cada grupo produz a sua batida própria, e as letras são produzidas a partir de refrões de fácil assimilação que são repetidos para que todos aprendam.<br />
<strong> </strong></p>
<p><strong>Agência de Notícias &#8211; Ainda na pesquisa você fala que no pagode as mulheres não têm voz ativa nas letras das músicas, nem compondo, nem cantando. Elas somente traduzem o que os homens cantam através das coreografias. Elas são as dançarinas, como a Carla Perez (mencionada na pesquisa). Em relação às bandas, está faltando espaço para a mulher no pagode?</strong><strong><br />
</strong><strong> </strong></p>
<p><strong>Clebemilton Nascimento &#8211; </strong>A mulher é “protagonista” nas narrativas das composições de pagode, elas são as principais consumidoras dessa música, mas elas não produzem repertório, não há mulheres compositoras, autoras e intérpretes de músicas de pagode. Não há espaço para elas se (auto) representarem. Estou falando de lugar de fala, de espaço para emergir outros discursos, seja de contestação, seja subvertendo uma ordem sexual, racista e patriarcal posta sobre a hegemonia masculina, trata-se da própria existência de um espaço para produção de discursos.<br />
<strong> </strong></p>
<p><strong>Agência de Notícias &#8211; Na pesquisa você traz uma definição, mais abrangente, do termo piriguete, correlacionado com o perfil de uma mulher inserida em uma sociedade contemporânea. Você poderia explicar melhor essa definição?<br />
</strong><strong> </strong></p>
<p><strong>Clebemilton Nascimento &#8211; </strong>Piriguete é um termo que nasce como uma variação de puta, inicialmente estava associada à mulher pobre, negra, frequentadora dos shows e espaços do pagode. Atualmente, ela é uma forma, digamos mais palatável, de nomear a mulher sexualmente livre e independente, dona dos seus desejos, que circula nos circuitos do pagode e carrega uma ambiguidade, que ora é admirada ora desqualificada, desvalorizada. As piriguetes do pagode representam uma ameaça aos homens de hoje que não aprenderam a conviver com a mulher livre e independente.<br />
<strong> </strong></p>
<p><strong>Agência de Notícias &#8211; Qual a sua opinião em relação à lei nº 19.137/2011, popularmente chamada de lei antibaixaria?</strong><strong><br />
</strong><strong> </strong></p>
<p><strong>Clebemilton Nascimento &#8211; </strong>A propósito, um nome extremamente infeliz e problemático porque deixa evidente um sentido negativo, remetendo a um julgamento de valor, de “baixa cultura” ou “cultura da baixaria”. Evidencia um discurso dicotômico e hierarquizador, marcado pela tentativa de apagamento do Outro colonial, pelo estereótipo de jovens negros, pobres, favelados e que produzem uma cultura “degradante”, além de representar uma ideologia classista e racista, conforme a análise dos discursos que constroem as representações dos grupos de pagode, no universo da música-comercial na Bahia. Evidentemente que a lei não resolverá o problema da violência simbólica de gênero, assim como a lei Maria da Penha não impediu que a violência contra a mulher chegasse a índices alarmantes no nosso país. A lei enquanto mecanismo de controle da liberdade de ir e vir, bem como de controle e aplicação do dinheiro público é legítima, mas como já deixei claro, precisa ser amadurecida e aprofundada em um debate mais qualificado.<br />
<strong> </strong></p>
<p><strong>Agência de Notícias &#8211;  O que você acha dos protestos feministas acerca da temática: pagode baiano X desqualificação da mulher?</strong><strong><br />
</strong><strong> </strong></p>
<p><strong>Clebemilton Nascimento -</strong>Eu não vejo como uma revolta, uma guerra declarada. Acho que os meios de comunicação, e especialmente um tipo de mídia sensacionalista e irresponsável, contribuiu para botar fogo nessa fogueira que coloca de um lado as feministas como inimigo número um do pagode e do outro, as bandas de pagode, os grandes vilões, na berlinda. O que efetivamente existe é uma reação cada vez mais forte de grupos e organismos feministas, uma reação e uma resposta, legítima, e que está preocupada em romper com o ciclo da violência de gênero contra a mulher; seja ela simbólica através de xingamentos, ofensas, agressões, com uma cultura do estupro, da impunidade e que, infelizmente, vai encontrar em determinadas músicas de pagode espaço para disseminação e reprodução desses discursos. Não podemos aceitar que muitas mulheres sejam privadas de direitos, tendo suas vidas controladas por homens, apanhando, sofrendo abusos.<br />
<strong> </strong></p>
<p><strong>Agência de Notícias &#8211; Você acha que essas músicas de pagode impõem uma relação de poder do homem sobre a mulher?</strong><strong><br />
</strong><strong> </strong></p>
<p><strong>Clebemilton Nascimento &#8211; </strong>Evidente que sim, porque a letra em seu processo de enunciação expressa um controle sobre o corpo e o comportamento sexual da mulher, reforça lugares de dominação e submissão, produz representações machistas. Mas não podemos simplesmente colocar a culpa no pagode. O pagode é uma expressão da própria cultura que é machista e sexista.<br />
<strong></strong></p>
<p><strong>Agência de Notícias &#8211; Por que, em sua opinião, as mulheres gostam tanto das músicas de pagode que, em sua maioria, as desqualificam?<br />
</strong><strong></strong></p>
<p><strong>Clebemilton Nascimento &#8211; </strong>Na nossa cultura híbrida, de base afro-baiana, o corpo, a sexualidade tem um significado diferente, não é colocado como um tabu como na visão judaico cristã.  Como coloca Muniz Sodré, o samba é o dono do corpo, ele é quem manda. Quem resiste a um ritmo que contagia?   O pagode está presente na nossa experiência enquanto povo, nação e hoje caiu no gosto da classe média, ainda que tão somente para desdenhar. Para muitas mulheres a letra pouco importa, pois fica subsumida ao ritmo que envolve e contagia. Muitas outras constroem nesse espaço uma via de subversão.</p>
<p><em>*Graduanda de Comunicação/ Jornalismo da Faculdade de Comunicação da UFBA e estagiária da Agência de Notícias em Ciência e Cultura/ UFBA.</em></p>
<p><em>** Graduanda de Comunicação/ Jornalismo da Faculdade de Comunicação da UFBA e estagiária da Cipó Comunicação Integrada.</em></p>
<p><em>*** Graduanda de Comunicação/ Jornalismo da Faculdade de Comunicação da UFBA e estagiária da Assessoria de Comunicação dos Correios.</em></p>
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