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Atualizado em 20 DE setembro DE 2018 ás 16:25

Desenho animado como arte

Apaixonada por animação, a estudante de jornalismo e nossa repórter, Amanda Dultra, traça um panorama evolutivo da animação no mundo e no Brasil

POR AMANDA DULTRA*
amandadultra@hotmail.com

Independentemente de ser através de uma série de televisão, de um longa-metragem no cinema, ou mesmo em uma publicidade, todo mundo já teve contato com a animação. A animação pode ser considerada a arte mais diversa e que abarca mais técnicas: desenho, música, atuação, esculturas, escrita, e, em alguns casos, até mesmo a dança. Com tamanha pluralidade, seria difícil não ser incorporada como um meio viável de transmitir narrativas.

O ciclo de movimento de um personagem correndo/Imagem: Phoenix Smith

Trata-se de uma arte em constante evolução: no uso dos mais distintos métodos, uma história se constrói nas frentes dos olhos do seu espectador conforme escolheu a equipe por trás. Mais do que um desenho estático, no quadro a quadro que se monta, os artistas levam em conta a movimentação e passagem de tempo. Em 1915, Max Fleischer desenvolveu o rotoscópio –  uma máquina que permitiu aos animadores desenharem por cima de quadros de filmagem e vários de seus curtas utilizaram a máquina, mais notavelmente os da Betty Boop.

Fleischer e sua Betty Boop/Imagem: Acervo do Alchetron

A animação, graças aos seus vários dispositivos, pode ser muito rica. O autor e cartunista Alexandre Alexeïeff afirmou no prefácio do livro Cartoons: One Hundred Years of Cinema Animation (sem tradução no Brasil), do Gianalberto Bendazzi: “Eu posso afirmar que animação ensina como saber melhor a forma como um homem vê e pensa. Permitiu-me entrar a verdadeira quarta dimensão, introduzindo-me a um universo desconhecido o qual eu usei para criar novos efeitos. No mesmo jeito que uma pintura desenvolve uma consciência sobre cores, valores e formas, animação desenvolve uma consciência de movimentos e passagens de tempo”.

Mais do que isso, um desenho animado pode influenciar muito um indivíduo. Em entrevista, a estudante do Bacharelado Interdisciplinar de Artes da UFBA, Larissa Rebouças comentou: “Animações são histórias que conectam crianças e adultos com aventuras cheias de metáforas para ensinar a lidar com problemas cotidianos. Se a gente quer mudar a sociedade, a animação é um recurso que incentiva muito a formação de crianças, então é motivador ver como os desenhos estão mudando a visão masculina de heróis que está se formando agora”.

Introdução a uma breve longa trajetória - A história da animação como conhecemos hoje começou há menos de 130 anos, na França do final do século XIX. Apesar de existirem técnicas para simular a ideia de imagens em movimentos desde a Idade Antiga – o primeiro registro é o de um cálice encontrado no Irã datado mais de 5000 anos, é com o Théâtre Optique (teatro óptico), de Émile Reynaud, que nasce essa arte. Ao modificar sua própria invenção, o praxinoscópio – um aparelho que projeta imagens desenhadas sobre fitas transparentes em uma tela – conseguiu reproduzir a ilusão de movimento com a primeira produção do gênero: Un Bon Bock (ou “Uma Boa Cerveja”), exibida oficialmente em 28 de outubro de 1892.

Ainda que primitivo, o teatro óptico foi uma revolução no meio cinematográfico. Nas palavras do estudioso da animação Gianalberto Bendazzi, no seu livro Animation: A World History Volume 1 (sem tradução em Português ainda), “imagens não mais eram organizadas numa tira curta e auto-finita localizada dentro do cilindro, porém pintadas numa fita, podendo reconstruir através de uma síntese óptica uma cena completa de quinze ou vinte minutos”. Isso tudo antes da invenção dos Lumière em 1895.

Contudo, apesar de sua relevância histórica, o grande marco da entrada da animação no circuito cinematográfico foi com o lançamento em 15 de agosto de 1908 do curta-metragem do Émile Cohl, Fantasmagorie. Essa película, com duração de menos de dois minutos, foi a primeira produção inteiramente animada que passou num projetor de cinema moderno. Fantasmagorie é a porta de entrada de fato das animações na sétima arte com seus traços brancos simples num fundo preto simulando um quadro negro. Ainda era mudo, entretanto. Seria apenas com Steamboat Willie do Walt Disney que uma nova era começaria.

Walt Disney e seu império - Geralmente quando se pensa nessa forma de arte, as produções dos estúdios da Disney são as primeiras imagens que vêm à mente. A Companhia Walt Disney foi imaginada, primeiramente, como um ambiente apenas voltado para o desenvolvimento de desenhos animados antes de se tornar o gigantesco conglomerado de mídia e entretenimento que é hoje. Fundada em 1923 pelos irmãos Walter Elias e Roy Oliver Disney, seu nome original era Disney Brothers Cartoon Studios, e de lá veio a revolução da Era de Ouro da Animação (1928-1951, segundo o já mencionado Animation do Bendazzi).

Walt Disney e suas criações/Imagem: Acervo do History Time

Walt era um homem dedicado e seus trabalhos refletem isso. O Steamboat Willie como já dito foi o primeiro curta com som. Ele também lançou o primeiro desenho colorido pelo processo Technicolor – que utiliza as três matrizes ciano, magenta, e amarelo e foi o principal método de coloração até a década de 70 – em 1932, Flowers and Trees (Flores e Árvores). Também lançou o primeiro longa-metragem animado colorido em 1937, Branca de Neve e os Sete Anões, o qual está entre os dez filmes com maior bilheteria de todos os tempos com ajuste de inflação. Não só isso, mesmo depois da sua morte, a sua companhia também distribuiu o primeiro longa de animação computadorizada, Toy Story de 1995. Com tantas revoluções na indústria, é difícil pensar essa arte dissociada deste império que apenas cresce com sua animação inofensiva e acessível.

No Brasil - Saindo do circuito América do Norte-Europa, o desenho animado não encontrou um espaço tão promissor no Brasil. Ao contrário da vizinha Argentina, a qual desenvolveu a primeira película longa de animação do mundo El Apóstol já em 1917, o Brasil lançou seu primeiro curta no mesmo ano, Kaiser – que se perdeu. Demorou bastante para o panorama dessa arte país se mostrar mais favorável. De acordo com Andréia Prieto Gomes em seu artigo publicado em 2008, “História da Animação Brasileira”, “o cenário não era favorável e nem fácil para os animadores brasileiros, pois: “o Brasil não possuía os meios necessários para estudar as técnicas que já existiam, nem livros especializados a respeito do assunto, então cada desenho animado estrangeiro que era exibido nos cinemas servia como referência para os fanáticos que desejavam aprender os tais ‘macetes’ da animação. O panorama político do país também estava diretamente relacionado às mudanças, ora gerando facilidades ora dificuldades para o cinema de animação brasileiro”.

Por muito tempo, inclusive, exportamos talentos. Carlos Saldanha, o qual se consagrou na série de filmes Era do Gelo, no início dos anos 2000, foi estudar no Canadá para conseguir resultados. Outra figura conhecida também foi a animadora Lúcia Modesto, que trabalhou em diversos projetos com a Dreamworks, em especial a série Shrek. Em entrevista ao portal Omelete em 2007, Luciana disse o porquê de ter ido ao exterior: “Eu vim pra cá porque queria fazer filmes, que é algo que me interessa muito mais do que fazer comerciais, que é o que mais se faz no Brasil. Prefiro passar mais tempo num projeto do que correr com um filme publicitário”.

A situação começou a mudar conforme o público se abriu mais aos desenhos animados com o advento da televisão, sobretudo a partir da década de 1970. Agora que as produções estadunidenses como Flintstones, Manda-Chuva, ou Scooby-Doo eram televisionadas, o caminho se abriu para obras nacionais. Em 1975, a Lei do Curta – a qual tornava obrigatória para a exibição de filmes internacionais a passagem de um curta-metragem brasileiro – ajudou como incentivo para novas realizações. Mais para a frente, já em 2003, é fundada a Associação Brasileira de Cinema de Animação (ABCA), uma organização que preza por representar animadores junto a entidades privadas ou públicas. Ter um órgão para a categoria significa muito, tendo em vista que visa apoiar formação, produção, distribuição e preservação da memória das obras brasileiras: é uma representação sólida, afinal de contas.

Hoje em dia, temos um cenário animado do Brasil muito diferente: em todos os canais fechados de desenho voltado ao público infantil, há pelo menos uma obra nacional. Em 2015, o longa O Menino e o Mundo, de Alê Abreu, recebeu a maior premiação do Animafest Zagreb – um dos maiores festivais dedicados à animação do mundo, realizado na Croácia. Além disso, foi o primeiro filme indicado ao Oscar da categoria em 2016. Ainda há mais o que avançar, porém, muito já foi percorrido.

Poster de divulgação do Menino e o Mundo

Para onde vamos? - Apesar de uma jornada relativamente curta em comparação às ditas Artes Clássicas, muito se transformou desde o teatro óptico. Incorporamos sons, cores, falas e, até mesmo, esculturas e programas de computador, além de mesclamos todas essas categorias. Expandimos o número de estúdios em todo o mundo. Ganhamos espaços em festivais e em convenções de nicho. É difícil dizer se animação alcançou todo seu potencial diante de tantas revoluções tecnológicas, mas certamente não se esgotou de histórias para contar.

*Estudante do curso de jornalismo da Faculdade de Comunicação e repórter na Agência de Notícias em CT&I – Ciência e Cultura UFBA

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