Mesmo com o decreto de 2009, muito alunos ainda têm dificuldades de permanecerem nas salas de aulas. Isso em parte se deve pelo despreparo dos professores no trato a pessoas com deficiência.
POR RENATA SANTANA*
“A educação é um elemento importante para as pessoas ascenderem profissionalmente. Mas para as pessoas com deficiência, ela é ainda mais importante, por ser nosso primeiro núcleo de conveniência”, relata Ednilson Sacramento, cego e estudante do 5º semestre do curso de Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades da Universidade Federal da Bahia (UFBA). A educação, dessa forma, é um meio fundamental para se alcançar a inclusão social das pessoas com deficiência.
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Ednilson relata que não teve problemas para ingressar na Universidade, mas tem dificuldades para permanecer. “Os professores não sabem lidar com os alunos com deficiência, o material não é adaptado e pouco acessível, além disso, há atraso na entrega do material, criando um descompasso para acompanhar as aulas” afirma.
O Decreto nº 6.949/2009 instituiu que é direito fundamental das pessoas com deficiência não serem “excluídas do sistema educacional geral sob a alegação de deficiência”, dando início a uma nova política de educação inclusiva em todos os níveis do sistema regular de ensino. A educação inclusiva, portanto, é o caminho para o desenvolvimento de uma sociedade voltada para questões mais humanas. E a acessibilidade significa dar condições e possibilitar a todos garantia de direitos e autonomia.
Para a construção de uma sociedade cada vez mais inclusiva, portanto, a instituição educacional deve dar melhor a atenção à diversidade. Dessa forma, as pessoas com deficiência podem se desenvolver, ampliar seus conhecimentos e adquirir confiança para enfrentar novos desafios, pois quando inseridas num ambiente escolar, esses indivíduos interagem e se relacionam com os demais, ampliando os seus horizontes.
“Todos os seres humanos têm direitos iguais, independentemente de suas características, particularidades ou diferenças. O direito à educação é um dos direitos fundamentais dos seres humanos, está na Declaração dos Direitos Humanos e na Constituição Brasileira. Todo ser humano tem direito a aprender e a participar da sociedade”, afirma Teófilo Galvão Filho, membro do grupo de pesquisa em Educação Inclusiva e Necessidades Educacionais Especiais da UFBA.
Inclusão do aluno com deficiência - A Universidade Federal da Bahia (UFBA), através da Portaria nº. 074, de 26 de março de 2008, criou o Núcleo de Apoio à Inclusão do Aluno com Necessidades Educacionais Especiais (NAPE), que visa a implementação de políticas de acessibilidade à educação superior de pessoas com Necessidades Especiais, especialmente aquelas com deficiência.
“A UFBA tem alunos com diferentes tipos de deficiência. O que a universidade tem procurado fazer é fortalecer esses núcleos de apoio aos estudantes, para que, cada vez mais, vá se buscando fornecer aos alunos meios para que ele realmente possa estudar”, afirma Teófilo Galvão Filho, pesquisador e membro do NAPE.
O NAPE atua, dentre outras atividades, com o apoio a inclusão do aluno com deficiência, na universidade em todos os espaços e contextos; promovendo assessoramento técnico-pedagógico aos professores e coordenadores de cursos da universidade e um atendimento adequado às necessidades individuais do aluno; e fornece material didático especializado ou adaptado necessário ao aluno, quando houver disponibilidade. Além disso, o NAPE realiza pesquisas na área da Tecnologia Assistiva, visando construir novas concepções e possibilidades tecnológicas.
Para Teófilo Galvão, “existe um número incontável de possibilidades de recursos simples e de baixo custo que podem ser disponibilizados nas salas de aula inclusivas para atender as necessidades específicas de cada aluno. A tecnologia assistiva na educação se tornou, cada vez mais, uma ponte para a abertura de novo horizonte no processo de desenvolvimento e aprendizagem dos alunos com deficiência”, afirma o pesquisador.
Algumas tecnologias assistivas produzidas pelo NAPE são: suporte para visualização de textos e livros; fixação de papel ou cadernos nas mesas com fitas adesivas; engrossadores de lápis ou canetas; softwares que transformam em áudio um texto; substituição de mesas por pranchas de madeira ou acrílico fixadas na cadeira de todas; e a ampliação de textos.
Qualificação dos educadores – A APAE Salvador, instituição que presta assistência integral à pessoa com deficiência intelectual, por meio do Centro Educacional Especializado (CEDUC), criou o Programa de Apoio à Inclusão Escolar, que visa a qualificação dos professores que atuam no ensino regular, através de cursos e palestras.
Além de acompanhar os alunos na sua permanência na escola, o programa fornece subsídios conceituais e metodológicos a todos os educadores e, especificamente, aos professores que atuam diretamente com esse aluno. “Nós realizamos várias atividades durante todo o ano, com uma equipe itinerante que vai até as escolas e com palestras e cursos aqui no nosso espaço”, relata a coordenadora do CEDUC, Itana Lima.
Ainda segundo Itana, “todo este trabalho tem como foco o apoio ao professor. É importante que o professor seja capacitado, pois, ele vai compreender melhor essa deficiência e como acontece o processo de aprendizagem, compreender que as pessoas têm ritmos diferentes para acompanhar a programação escolar. Esse aluno deve ser participante do processo, deve ser visto como qualquer outro. A escola comum e a educação especializada são dois braços de um mesmo corpo chamado educação”.
O Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (SENAC), através da sua Rede Pós-EAD, também atua na preparação dos profissionais de educação, oferecendo um curso de pós-graduação em destinado a professores e gestores educacionais graduados que atuem na área de educação, com foco na inclusão escolar.
“A escola é uma célula da sociedade que reflete exatamente a inconsistência da compreensão transformada em ação e é exatamente o lugar promotor da grande transformação: a educação. Com essa crença, foi criado o curso de Especialização em Educação Inclusiva, cujos educadores, os gestores e os professores são o público-alvo”, relata Kátia Lucena, Gerente do Centro de EAD do SENAC Bahia.
O objetivo do curso é qualificar os concluintes para se tornarem aptos a refletirem, planejarem, executarem e avaliarem práticas, metodologias e recursos educacionais com foco em Educação Inclusiva. O especialista nesta área, portanto, pode atuar como gestor educacional, como professor de sala de aula regular e como professor especialista que atende alunos com algum tipo de deficiência específica.
Realidade brasileira - Para o estudante Ednilson Sacramento, embora existam diversas ações do Estado no âmbito da regulamentação e das portarias, os resultados ainda não são vistos efetivamente nas salas de aula. “As instituições educacionais precisam dialogar mais com os professores, que não incorporaram a necessidade de tratar de forma diferente esses alunos e não se preparam para atender a esses alunos”, comenta.
O pesquisador Teófilo Galvão, analisa a situação atual da educação. “Quase 24% da população brasileira tem algum tipo de deficiência. Na UFBA hoje temos mais de 30.000 alunos e apenas 50 alunos com deficiência. Somente uma minoria que consegue chegar até aqui, o que mostra que ainda estamos longe de ter uma sociedade plenamente acessível”, afirma.
Renata Santana é jornalista e especialista em Jornalismo Científico e Tecnológico.