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	<title>Ciência e Cultura &#187; Opinião</title>
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	<description>Agência de notícias sobre ciência, tecnologia e inovação da Bahia</description>
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		<title>Crônicas do Fim do Mundo: A Crise do RU de Ondina e o Impacto nos Estudantes da UFBA</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Dec 2025 15:07:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pesquisador</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O retorno do quadro “Crônicas do Fim do Mundo” traz o retrato atual da infraestrutura da UFBA em tempo de cortes e crise.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p dir="ltr">O RU foi o instrumento criado pela movimentação e reivindicação estudantil na década de 60, sendo uma conquista coletiva. No entanto, no dia 27 de novembro de 2025, estudantes da UFBA não puderam se alimentar no Restaurante Universitário de Ondina devido a danos ao teto por conta dos temporais.</p>
<p dir="ltr">Com a interdição deste restaurante, a UFBA notificou que os bolsistas não seriam punidos pela falta de comparecimento e coube aos estudantes se deslocarem a outro campus para fazerem sua refeição. Não houve um planejamento para comportar essas demandas, já que o RU de Ondina é o maior de todos, podendo servir 7 mil alunos por dia, e o restante dos pontos de outros polos serve somente 3 mil, que são divididos entre si, segundo nota publicada no site da UFBA.</p>
<p dir="ltr">Alunos relatam que o comunicado a respeito da suspensão dos almoços foi escasso, feito de forma ineficiente pelos canais de veiculação da UFBA. Estudante do segundo semestre do BI de Humanidades, Hanna Souza conta que ficou sabendo de maneira informal a respeito da situação. “Foi mal avisado que o RU de Ondina ia fechar para reforma, a gente só ficou sabendo porque o moço que fica na portaria do RU falou: ‘Olha, a partir de amanhã o RU vai fechar e só volta dia 2.’” Terminando sua fala, ela conta que essa foi a única via de informação que chegou até ela. “E aí a gente falou: ‘Poxa, muito obrigado por avisar, senão amanhã eu ia chegar aqui e ia dar de cara na porta.’”</p>
<p dir="ltr">No dia fatídico, alunos que foram a outros polos do RU se depararam com o fim das fichas e da comida, ficando em situação de insegurança alimentar em meio ao semestre. As aulas percorrem naturalmente e os estudantes precisam improvisar o que fazer diante desse cenário. Foi o caso de Tainá Pereira, que come no RU de Ondina assiduamente. “Foi uma surpresa porque, assim, eu tinha visto um anúncio, mas fiquei confusa com o jeito que eles passaram a informação de que o RU ia ficar com a capacidade menor. Só que depois, no dia, a gente descobriu que não ia ter. Aí eu fui com um amigo almoçar aqui na cantina da FACOM, só que assim, a gente gastou para almoçar uma vez o que almoçava e jantava a semana toda.”</p>
<p dir="ltr">Não é a primeira vez, já que é importante ressaltar que o cotidiano da UFBA foi afetado pela insegurança do teto desabar anteriormente. Em outubro deste ano, as aulas foram suspensas no Departamento III da Faculdade de Educação da UFBA após o teto cair. O motivo é o mesmo: fortes chuvas.</p>
<p dir="ltr">Esse histórico de adiamento de reparos é uma realidade que a universidade federal vive, mas, em um ano de cortes e contenção de gastos, as decisões administrativas afetaram diretamente o bem-estar da comunidade estudantil. Darley Silvano, bolsista da PROAE e estudante de Produção Cultural, conta como o adiamento de reparos e consertos dentro do espaço universitário — principalmente o restaurante — deixou o ambiente vulnerável até se tornar insustentável.</p>
<p dir="ltr">“É uma situação premeditada, realmente, que isso em algum momento fosse acontecer. Porque, como eu falei anteriormente, já vinha ocorrendo, o teto já vinha dando sinais que em algum momento ele iria ceder. Então, foi algo premeditado. Então, situações que poderiam ter sido resolvidas anteriormente, não foram.”</p>
<p dir="ltr">Em relação ao orçamento destinado à universidade, em 2024, o valor de corte em relação à UFBA foi de 13 milhões, e, apesar de não ser divulgado o valor de manutenção predial, as despesas de conservação e revisão da universidade foram diretamente afetadas, consequentemente aprofundando a crise estrutural. Novamente, este ano, em abril, a UFBA comunicou que recebeu 4/12 do orçamento de custeio, referentes ao período de janeiro a abril, afirmando que a situação a respeito de novos custeios seria normalizada a partir de maio.</p>
<p dir="ltr">O ano de 2025, para além de danos estudantis, também causou descontentamento da administração da UFBA quanto à ocupação da universidade federal. Com o mesmo número de pessoas que o RU de Ondina consegue servir em um dia, calouradas foram o foco de duras críticas e posicionamento da gestão atual da universidade.</p>
<p dir="ltr">Assim, se percebe uma diferença na reação a problemas ligados ao campus e ao que acontece dentro dele, principalmente relacionado à imagem da UFBA. Isso se mostra na rapidez com que os alunos da universidade foram punidos por problemas vinculados a “barulho” e conflitos na festa “Paredão da Facom”, que aconteceu no dia 19 de setembro, resultando na decisão de suspensão de festas universitárias dentro do campus, sem abertura para debate.</p>
<p dir="ltr">A falta de comunicação parece fluir bem mais que um erro ocasional ao se analisar duas situações que abrangem gravidades distintas e comportamentos desproporcionais. Primeiramente, pela devolutiva dada por um espaço que tem sua estrutura danificada, a ponto de causar perigo no espaço acadêmico. Em oposição, um evento indesejado pela imagem dos paredões dentro do campus e suas implicações aos cargos de liderança dentro da universidade federal. É o contraste entre contenção e punição.</p>
<p dir="ltr">O cenário é de direitos estudantis relacionados à alimentação e ao direito de ocupação da universidade sendo ameaçados. Porém, a educação sempre vai ser um âmbito de disputa, e, ao ver a repetição de estruturas cedendo em universidades públicas, vemos um padrão de abandono.</p>
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		<title>Fake news: O calcanhar de aquiles que vem se destacando no cenário político brasileiro</title>
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		<pubDate>Thu, 30 Oct 2025 17:44:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pesquisador</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Um dos países mais conectados do mundo presencia o crescimento das notícias falsas nos últimos anos e seu potencial de influência na política brasileira.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Desinformação e mentiras sempre percorreram o cenário político. Porém, na era da informação instantânea, as chamadas fake news — expressão eleita em 2017 como a “palavra do ano” pelo dicionário britânico Collins — vêm se consolidando como um dos principais obstáculos da política atual. Segundo um estudo realizado pela UFRJ durante o segundo turno das eleições presidenciais de 2022, houve um aumento na circulação de notícias falsas. A média diária de mensagens falsas cresceu de 196,9 mil antes do primeiro turno para 311,5 mil depois.</p>
<p dir="ltr">O professor do Departamento de Ciência Política da UFBA, Renato Francisquini Teixeira, explica que a política é um terreno de disputas discursivas, em que a palavra tem importância central. Portanto, não existe um caminho único para se chegar ao que poderia ser denominado “verdade”.</p>
<p dir="ltr">“Já que a gente está nesse terreno lidando com conceitos que são essencialmente contestáveis, no terreno do justo, da liberdade, da democracia, a gente está sempre num debate para chegar a formulações que sejam mais adequadas. Muitas vezes as formulações vão ser as mais adequadas às nossas próprias concepções sobre o que é uma vida digna, sobre o que é o bem comum, o interesse do mundo”, afirma o professor.</p>
<p dir="ltr">Além disso, ele explica que, historicamente, a política sempre se valeu de estratégias argumentativas para convencer a população de que determinado caminho, grupo ou decisão seria o mais adequado. O problema atual, segundo Teixeira, está no esforço de certos grupos em falsificar o que se denomina verdade factual. Esses grupos surgem em um contexto de mundo fragmentado, ou seja, polarizado. As pessoas passam a acessar apenas informações que reforçam seus próprios conceitos políticos — o que, por sua vez, fortalece a disseminação de notícias falsas, já que se torna difícil saber se “há uma realidade compartilhada entre as pessoas”.</p>
<p dir="ltr">No dia 14 de janeiro, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL) publicou um vídeo em suas redes sociais que atingiu mais de 100 milhões de visualizações em apenas um dia. No vídeo, ele insinuava que o Pix poderia ser taxado futuramente, que o governo Lula vigiaria movimentações bancárias de trabalhadores informais como se fossem sonegadores e que tiraria o sigilo fiscal do “cidadão comum e empreendedor” — o que não era verdade.</p>
<p dir="ltr">A publicação do deputado aumentou ainda mais as discussões nas redes sociais sobre o assunto. O governo acabou revogando a medida, e o próprio Banco do Brasil divulgou um vídeo desmentindo as afirmações.</p>
<p dir="ltr">O professor explica que as plataformas digitais possuem um enorme potencial de alcance, o que as torna atrativas para que políticos conquistem um público cativo e obtenham sucesso eleitoral — como é o caso de Nikolas Ferreira. Apenas no Instagram, ele tem quase 19 milhões de seguidores e foi o deputado federal mais votado do país e da história de Minas Gerais, em 2020, com mais de 1,4 milhão de votos. Segundo a agência de marketing digital AtivaWeb, após o vídeo sobre o Pix, o engajamento do deputado ficou acima da média para criadores de conteúdo político, e seu número de seguidores aumentou em 10,5%.</p>
<p dir="ltr">Por ser parlamentar, explica o professor, a tendência é que as pessoas acreditem nas informações compartilhadas em suas redes sociais — o que realmente aconteceu. Uma pesquisa realizada pela Quaest apontou que 67% dos brasileiros acreditavam que o governo cobraria uma taxa sobre operações financeiras por meio do Pix, enquanto apenas 17% não acreditavam nisso.</p>
<p dir="ltr">“Acho que cabe um debate sobre qual é o limite da liberdade de expressão — especialmente no caso de figuras proeminentes, como Nikolas Ferreira — e o amplo poder de alcance que elas têm para difundir notícias falsas”, comenta o professor.</p>
<div id="attachment_29558" class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2025/10/tela-de-celular-escrita-fake-news-1682776958265_v2_900x5061.jpg"><img class="size-full wp-image-29558 " title="tela-de-celular-escrita-fake-news-1682776958265_v2_900x506" src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2025/10/tela-de-celular-escrita-fake-news-1682776958265_v2_900x5061.jpg" alt="" width="600" height="400" /></a><p class="wp-caption-text">Reprodução: Pedro França/Agência Senado</p></div>
<p dir="ltr">O Brasil figura entre os países mais conectados do mundo: 89,1% da população acessa a internet, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua): TICs, que registrou um aumento de 6,1 milhões de pessoas conectadas nos últimos dois anos. Mais pessoas online significam também mais chances de acessar conteúdos falsos.</p>
<p dir="ltr">De acordo com o Instituto Locomotiva, quase 90% da população admite ter acreditado em fake news. Dentre elas, 57% acreditaram em informações falsas sobre economia e 51% sobre segurança pública e sistema penitenciário.</p>
<p dir="ltr">Buscar informações que reforcem convicções pessoais é um fator crucial para o compartilhamento de notícias falsas, segundo o professor Teixeira — especialmente em uma sociedade dividida.</p>
<p dir="ltr">“Isso leva para que elas radicalizem suas opiniões e posições. Esse é um fator que também contribui para o cenário que a gente vê de divisão da sociedade e para esse cenário de formação da opinião pública de forma tão fragmentada”, afirma.</p>
<div id="attachment_29559" class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2025/10/sem_titulo-10_3.jpg"><img class="size-full wp-image-29559 " title="sem_titulo-10_3" src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2025/10/sem_titulo-10_3.jpg" alt="" width="600" height="400" /></a><p class="wp-caption-text">Reprodução: Lula Marques/Agência Brasil</p></div>
<p dir="ltr">Em 2020, foi aprovado no Senado o Projeto de Lei 2638/20, conhecido como PL das Fake News, de autoria do senador Alessandro Vieira (PSDB). Sua versão final foi protocolada pelo deputado federal Orlando Silva (PCdoB) em 27 de abril de 2023. O projeto buscava estabelecer mecanismos de regulamentação das plataformas digitais, para que estas impedissem a publicação de notícias falsas e discursos de ódio.</p>
<p dir="ltr">Após quatro anos de discussão na Câmara dos Deputados, o presidente da Casa à época, Arthur Lira, engavetou o projeto, alegando falta de consenso e polêmicas em torno do texto.</p>
<p dir="ltr">A PL ficou marcada pela forte divergência entre parlamentares. A oposição a apelidou de “PL da Censura”, alegando que o texto feria a liberdade de expressão. Circularam ainda notícias falsas afirmando que o projeto censuraria versos bíblicos nas redes sociais — desinformação impulsionada por publicações do deputado Deltan Dallagnol (Podemos-PR) e do senador Sergio Moro (União-PR).</p>
<p dir="ltr">Entretanto, as críticas não vieram apenas de políticos de direita. Segundo o professor Renato Francisquini Teixeira, o projeto também foi fortemente atacado pelas Big Techs — grandes empresas de tecnologia como Meta, Google e Amazon —, por meio de um lobby agressivo, temendo a interferência que a PL poderia trazer no controle que essas plataformas exercem sobre o debate público.</p>
<p dir="ltr">“Há evidências suficientes para a gente afirmar que elas (plataformas digitais) têm um impacto muito significativo sobre o processo deliberativo, que leva à formação da opinião, da vontade democrática, da visão das pessoas e da escolha que elas vão fazer no processo eleitoral. E elas fazem isso de uma forma pouco transparente, por exemplo, através dos algoritmos sobre os quais a grande maioria das pessoas não têm sequer uma compreensão mais adequada”, explica o professor.</p>
<div id="attachment_29560" class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2025/10/50429036346_a9271a4327_o.jpg"><img class="size-full wp-image-29560 " title="50429036346_a9271a4327_o" src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2025/10/50429036346_a9271a4327_o.jpg" alt="" width="600" height="400" /></a><p class="wp-caption-text">Reprodução: Antonio Augusto/Ascom/TSE</p></div>
<p dir="ltr">Em 2026, mais de 150 milhões de brasileiros voltarão às urnas para escolher o próximo presidente do país. A última eleição presidencial, ocorrida em 2022, foi marcada por intensa polarização, desinformação sobre as urnas eletrônicas e uma democracia fragilizada — visto os eventos ocorridos em 8 de janeiro de 2023.</p>
<p dir="ltr">O professor afirma que, após os acontecimentos recentes, é provável que instituições como o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Supremo Tribunal Federal (STF) estejam mais preparadas para lidar com a propagação de fake news e outras instabilidades durante o processo eleitoral. Além disso, as pessoas tendem a estar mais atentas às informações que consomem.</p>
<p dir="ltr">O resultado dos julgamentos envolvendo os financiadores e participantes dos atos antidemocráticos, bem como daqueles que disseminaram fake news sobre o processo eleitoral, pode influenciar o comportamento de muitos eleitores nas próximas eleições.</p>
<p dir="ltr">“Devemos imaginar que as pessoas responsáveis por esse tipo de atuação — ao serem punidas — sirvam de exemplo para outras. Isso faz com que aqueles que planejam se valer dessas estratégias nas próximas eleições pensem duas vezes, sabendo que há possibilidade real de punição”, conclui o professor.</p>
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		<title>A cultura do pai ausente: quando o abandono é banalizado</title>
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		<pubDate>Tue, 21 Oct 2025 18:03:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pesquisador</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A maternidade solo está esgotando as mulheres, mas o país já parece acostumado com isso.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p dir="ltr">“Eu cresci só com minha mãe e minha irmã, até uns 13 anos meu pai até aparecia às vezes, mas depois ele sumiu” relata Julia Fulco, estudante de psicologia de 19 anos, que aprendeu ainda pequena que não poderia contar com a presença do pai na sua vida. A história dela se assemelha com a de milhões de brasileiros que enfrentam o abandono paterno, uma realidade que revela as marcas da desigualdade de gênero no Brasil.</p>
<p dir="ltr">Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), mais de 5,5 milhões de crianças e adolescentes não têm o nome do pai no registro de nascimento. Mas o número real de crianças que convivem com o abandono emocional e material é ainda maior.</p>
<p dir="ltr">Para Julia, a solução foi aprender a conviver com a ausência: “Hoje em dia eu aceito mais, tenho que resolver qualquer vestígio disso sozinha”. A mãe dela é uma das mais de 11 milhões de mães solo no Brasil, de acordo com pesquisas recentes da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Números e relatos como esses revelam a naturalidade que envolve esse fenômeno, responsável por cicatrizes profundas nas mães e filhos que dão rosto aos dados.</p>
<p dir="ltr">Para a psicóloga Thaís Carvalho, o abandono paterno afeta aspectos psicológicos e sociais nas mulheres que criam seus filhos sozinhas: “Ser uma mãe solo é algo estigmatizado desde tempos remotos da civilização brasileira, e isso é um peso social que é impossível não impactar no status psicológico de um ser humano” afirma a profissional, também responsável pelo projeto “Elas Merecem”, dedicado a fornecer atendimento psicológico facilitado para mulheres de todo o país. Nesse contexto, o “dar conta de tudo” se torna um grande desafio, pois a mulher enfrenta uma pressão psicológica imensa para gerenciar todas as responsabilidades profissionais e domésticas, enquanto o abandono paterno é pouco criticado socialmente, e o papel masculino é frequentemente limitado ao aspecto financeiro.</p>
<p dir="ltr">De acordo com pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres brasileiras passam, em média, 21,3 horas semanais em atividades e afazeres domésticos, combinando o trabalho remunerado com as exigências não remuneradas do lar. Essa sobrecarga leva a queixas de cansaço, desânimo, tristeza, solidão e desamparo: “Então, eu diria que a marca psicológica da ausência paterna sobre a mulher no Brasil é a sobrecarga mental. Ela é totalmente sobrecarregada pelas minúcias desse dia a dia que ela vai ser obrigada a administrar como um papel fundamental e basicamente indiscutível para ela“ declara a psicóloga.</p>
<p dir="ltr">Thaís também destaca que o impacto ultrapassa o campo individual e mental, afetando aspectos econômicos e sociais que reforçam desigualdades, e aponta o empobrecimento como principal consequência disso: “Para além das nuances do estigma, de tudo isso que é um reflexo, o principal é que as mulheres empobrecem porque tem filhos e os homens não cuidam deles. E a gente não consegue ascender enquanto um gênero presente na sociedade que tem relevância social e participação no mercado de trabalho, que tem voz e potência política, justamente por essa posição de vulnerabilidade”.</p>
<p dir="ltr">Dados da FGV apontam que 90% do aumento de mães solo entre 2012 e 2022 foram mulheres negras e 72,4% delas vivem sem nenhum apoio próximo. A combinação de questões raciais e de gênero agrava a situação, com impacto na renda e na capacidade de desenvolvimento profissional: “A mulher é economicamente massacrada pela tarefa de ser mãe”, pontua Thaís.</p>
<p dir="ltr">A naturalização desse fenômeno remonta tempos coloniais com a cultura dos &#8220;filhos bastardos&#8221;. A sociedade não condena os homens por não assumirem suas responsabilidades paternas, eles se sentem autorizados a não serem pais, e a cultura não impõe estigmas a eles por essa falha, enquanto as mulheres são frequentemente culpabilizadas e estigmatizadas.</p>
<p dir="ltr">No Brasil, a legislação costuma tratar o abandono paterno quase exclusivamente sob a ótica da pensão alimentícia. Mas a ausência paterna é muito mais ampla do que a falta de sustento material, é também ausência emocional, educativa e simbólica. A lei cobra o dinheiro, mas não pode cobrar o cuidado. Não há mecanismos que incentivem o envolvimento afetivo e cotidiano do pai na criação dos filhos. Ao limitar-se ao aspecto financeiro, a sociedade reduz a paternidade a uma função de provedor e perpetua a ideia de que o vínculo emocional é descartável. Essa lógica reforça a desigualdade de gênero, enquanto as mães seguem sendo responsabilizadas por tudo: amor, tempo, educação e sustento, muitos pais continuam isentos dessas funções. Além disso, os filhos crescem desprovidos da figura paterna e muitas vezes precisam lidar com essas feridas individualmente quando envelhecem: “Eu tentava sair com ele e ficava ainda mais triste depois, porque ele não tinha interesse na minha vida e eu queria que ele fizesse parte”, lembra Julia.</p>
<p dir="ltr">Thaís Carvalho enfatiza que a sociedade brasileira não se preocupa com o abandono das crianças, e que a responsabilidade de lutar contra essa realidade recai, mais uma vez, sobre as mulheres, mas destaca que não é possível alterar essa realidade sem atingir os homens por meio de uma revolução da cultura de irresponsabilidade ensinada a eles desde a infância: “Quem pensa que o feminismo é um movimento contrário aos homens, está totalmente enganado e não entendeu nada dos objetivos do feminismo. Porque a gente nunca vai alcançar os nossos objetivos sem que os homens tenham uma mudança das condições sociais de desenvolvimento deles, porque o machismo tortura os homens na infância. O machismo é uma máquina que esmaga a todos”.</p>
<p dir="ltr">Falar sobre abandono paterno é cutucar uma ferida aberta da sociedade brasileira, que atravessa lares e gerações. Enquanto as mães seguem acumulando funções e os filhos aprendem a lidar com o vácuo, o tema ainda é pouco discutido fora do campo individual. Histórias como a de Julia revelam que a ausência de um pai não é apenas um drama familiar, mas um espelho de como o cuidado ainda é visto como responsabilidade feminina. Romper com essa lógica é essencial para que o cuidado deixe de ser uma obrigação isolada e se torne uma pauta social. Enfrentar o abandono, portanto, é também fortalecer as mulheres como classe política, e questionar um modelo de sociedade que se apoia na invisibilidade do trabalho feminino.</p>
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		<title>A PEC da Blindagem, ou o nós contra eles</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Oct 2025 17:40:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pesquisador</dc:creator>
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		<category><![CDATA[política]]></category>

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		<description><![CDATA[Por: Uelton Fael Souza Em um mês com tantas notícias políticas, mais um absurdo acontece em relação aos deputados federais: um projeto de lei que pode gerar mais impunidade para deputados &#8211; que já são criminosos. E, novamente, o povo &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;" dir="ltr"><em>Por: Uelton Fael Souza</em></p>
<p dir="ltr">Em um mês com tantas notícias políticas, mais um absurdo acontece em relação aos deputados federais: um projeto de lei que pode gerar mais impunidade para deputados &#8211; que já são criminosos. E, novamente, o povo é escanteado enquanto os deputados continuam a maquinar projetos e planos que só ajudam a eles e sua corja.</p>
<p dir="ltr">Mas antes disso tudo, temos que explicar o que é realmente essa PEC: a PEC da Blindagem (PEC 3/2021) impede que deputados e senadores sejam julgados ou investigados sem autorização prévia de suas Casas Legislativas, que farão votos secretos para resolver se o deputado ou senador será preso ou não. Na prática, nenhum deputado está vulnerável à prisão, seja ela em flagrante ou em investigações. A PEC é uma proposta de emenda da Constituição, ou seja, uma mudança no texto constitucional do país.</p>
<p dir="ltr">Esse projeto de lei já tinha sido colocado em pauta anos antes e foi aprovado, de 1998 até 2001. Deputados e senadores tinham passe livre para cometer crimes e não serem processados, na época, somente um deputado, Jabes Rabelo, foi acusado por receptação de veículo roubado. Enquanto isso, outros políticos cometiam crimes hediondos. Um dos deputados mais conhecidos por ter usufruído da emenda foi Hildebrando Pascoal, que só foi condenado após o fim de seu mandato, acusado de tráfico de drogas e homicídio, inclusive com uma motosserra. Naquele momento, o Congresso preferiu cassar o mandato do que permitir que o Judiciário fosse atrás do deputado trabalhando ativamente.</p>
<p dir="ltr">Mesmo com precedentes, vários deputados vieram em defesa da emenda, enquanto alguns supostamente dizem estar arrependidos de terem votado, como se seu partido tivesse os obrigado O povo também não ficou quieto e protestou contra essa mudança; A grande adesão das ruas, segundo fontes, amedrontou até mesmo os congressistas.</p>
<p dir="ltr">Após protestos, o projeto de lei foi votado e vetado pelo Senado de maneira unânime. E com isso, surge essa questão, será que realmente o Legislativo está com o povo? Neste ano, deputados de extrema direita vem trazendo pautas em redes sociais que podem interessar ao povo, como o roubo dos aposentados do INSS. Porém, não estão trabalhando para impedir que eles ocorram, e recuam quando percebem que a pauta afetará diretamente o seu campo político. Parece que eles estão sempre prontos para acusar e apontar dedos, mas nunca preparados para, no mínimo, levantar uma dessas pautas na Câmara.</p>
<p dir="ltr">Porém, essa proposta foi a gota d’água para muitos, eles não querem somente se safar, mas ter passe livre para vir contra o povo, como Gustavo Gayer que foi preso em flagrante por dirigir bêbado e ter atropelado 3 pessoas, com duas indo à óbito e outra perdendo os movimentos do corpo. Esse caso poderia se tornar padrão na nossa sociedade, contando que muitos deputados já são acusados ou processados por outros tipos de crime.</p>
<p dir="ltr">Em momentos de caos como esse, cabe ao povo levantar sua voz e indignação, protestos como esse deveriam ocorrer mais, para que quem tem o poder público, e principalmente a direita, perceba que se eles não trabalharem para o povo, é melhor irem embora para nunca mais voltar.</p>
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		<title>Cena Ballroom: preservação da cultura como sinônimo de resistência social</title>
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		<pubDate>Tue, 27 May 2025 20:01:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pesquisador</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
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		<description><![CDATA[“A Ballroom é para todo mundo, mas nem todo mundo é Ballroom.”
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h5></h5>
<p dir="ltr">Nos últimos anos, a ballroom tem ganhado cada vez mais visibilidade na mídia, com destaque em reportagens, documentários, videoclipes, reality shows e editoriais de moda. Muitas dessas abordagens acabam reforçando apenas o lado estético e performático do movimento — focando nos brilhos, nas poses e nas batalhas, mas deixando de lado o profundo impacto social que essa cultura tem para a juventude LGBTQIA+, especialmente em territórios periféricos.</p>
<p dir="ltr">Os integrantes, ao se estruturarem em uma base familiar, que se denominam por “casas”, garantem que laços afetivos sejam um fator que repassa saberes ancestrais e práticas culturais ligadas à negritude e à vivência queer. Para entender como a multi-preservação cultural ocorre na prática, conversamos com uma das houses ascendentes da cena soteropolitana da Ballroom, a Kiki House of Bushidō.</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 612px"><img src="https://lh7-rt.googleusercontent.com/docsz/AD_4nXc0972sYbqggKouGAWOib7guO1c0UvMCykr9cX_ahVjgbA6EivuJFgVU2gmvSSR4uRpyrUGvgkpKJrtrZ8KeP61JV3TOLHbANVj9o8ZwsOQI5TKxc-fmkOtxxt0UIfFhHeEBAro5A?key=oWnAaduBBxyHd85GfWzwmg" alt="" width="602" height="401" /><p class="wp-caption-text">Prince Eros Bushidō, Princess Júpiter Bushidō, Plazma Bushidō e Makori Bushidō | Foto por: Lucas Soares</p></div>
<p dir="ltr">Usando a oralidade eles aprendem no convívio diário, compartilhando experiências e celebrando indivíduos, como parte do processo de inserção na cultura. A dimensão cultural da Ballroom é extensa, historicamente, e também socialmente. Makori, integrante da casa Bushidō, fala sobre o processo de conscientização da origem e importância política da Ballroom.</p>
<blockquote>
<p dir="ltr">“Às vezes nem a gente que é Ballroom, até pessoas 007 que chegaram na cena há poucos meses, vão entender exatamente qual cultura eles estão fazendo parte, porque são muitos tópicos, são muitos anos, são muitas eras. Então, é um processo de aprendizado que muitas pessoas vão ter preguiça de entender e que vão abandonar, muitas pessoas que vão repudiar e que não vão gostar.”</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 612px"><img src="https://lh7-rt.googleusercontent.com/docsz/AD_4nXfRoB8VPYeNmlzXmAjNa7eYQeCHWsdMpI_3jYBwxrgvreqW6_cXT_aoCiV1Y-oH6mwTuYEpaD3aF3eMZqKHnvCjoAq2br2Gda9sghK9IfkKkteHMjb7JSLVjzbygrgle9zkswEalA?key=oWnAaduBBxyHd85GfWzwmg" alt="" width="602" height="505" /><p class="wp-caption-text">Makori Bushidō, Plazma Bushidō, Princess Júpiter Bushidō, Prince Eros Bushidō | Foto por: Lucas Soares</p></div></blockquote>
<p dir="ltr">Apesar da polaridade do entendimento sobre o movimento, é certo dizer que existe uma manutenção central quando o assunto é preservação cultural feito pelos integrantes das casas. Júpiter, Princess da cena baiana da Brazilian Kiki House of Bushidō, reforça a importância do estudo da Ballroom, principalmente daqueles que já adentraram na cena.</p>
<blockquote>
<p dir="ltr">“Eu e Pavuna, que é a mother da house, a gente tem uma brincadeira assim: ‘Só quer  dar Dip e não quer abrir um livro?’ Tipo, não é só a dança pela dança, é você estudar, a Ballroom tem muito disso. Você tem que estudar, você tem que procurar ir atrás”</p>
</blockquote>
<h2><strong>Corpos dissidentes que transformam espaços de exclusão em palcos de protagonismo</strong></h2>
<p dir="ltr">O estudo de um movimento artístico é um conjunto de entender o produto, onde ele é produzido e onde ele está inserido. Assim, a interseccionalidade, e o atravessamento dela na cena da Ballroom, é de indubitável importância para a construção dessa comunidade. A dança, os gestos e os códigos carregam heranças afro-brasileiras, mas não só isso, Júpiter aborda como a negritude se torna um fator chave dentro da Ballroom, onde se cria uma rede de apoio a jovens negros.</p>
<blockquote>
<p dir="ltr">“Nossa house é toda preta, sabe? Aqui em Salvador, todas as pessoas da house são negras e a house é de maioria negra. Então, isso para a gente é muito importante, esse senso de comunidade que vai para além da do gênero, da sexualidade, é também a raça. Porque a ballroom para mim é para além da performance, para além  do espaço artístico, é onde também eu construo minha comunidade”</p>
</blockquote>
<p dir="ltr">Essa comunidade faz com que a vulnerabilidade vire potência e o fazer artístico uma ferramenta de resistência cotidiana. O ato de se espelhar no outro e ter segurança em pessoas que dividem o mesmo contexto social faz com que percepções se construam, e que haja um empoderamento de corpos. Participantes do movimento da Ballroom, como Plazma, teve sua relação de auto imagem transformada ao participar da cena.</p>
<blockquote>
<p dir="ltr">“A ballroom me ajudou muito nisso, em questões étnico-raciais, e saber que meu corpo não é bem-vindo em todos os lugares.  Que eu tenho que andar com medo na rua às vezes, que eu posso não ser bem-vindo em certos lugares, mas ao mesmo tempo trouxe aquele lugar de, porra, eu tenho que bater no peito e falar quem eu sou, tá ligado? E eu tenho que ter orgulho daquilo, porque eu não vou ficar me escondendo para sempre. Então, é muito nesse fator de cura”</p>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img src="https://lh7-rt.googleusercontent.com/docsz/AD_4nXcyBjneRisS3LQ31kDUny35WfAKeODZMM1q-YhH55SDoZ_G0xKSE4rZROMvs22YVO0l3n1ZdZ0_XWxQTMSNSF9U1rtOr5B-3wg3vr2egQOFkB8bM3aciLku0_q5mGzDDk4QEop5?key=oWnAaduBBxyHd85GfWzwmg" alt="" width="586" height="429" /><p class="wp-caption-text">Plazma Bushidō  | Foto por: Lucas Soares</p></div></blockquote>
<h2><strong>Um sistema de talentos, com um grande potencial de economia criativa.</strong></h2>
<p dir="ltr">A Ballroom passa por um problema que a cultura brasileira sofre em todas as suas capilaridades, que é a arrecadação de fomento. Eros, Prince da Kiki House of Bushidō,  estudante de Produção Cultural na UFBA, revela que a Ballroom por ser um movimento artístico da periferia e queer, necessita da utilização de políticas públicas para suporte, seja ele financeiro, de equipamentos ou locais públicos. No entanto, apesar de existirem editais e leis que abrangem a Ballroom, ainda é muito pouco para o potencial da cena.</p>
<blockquote>
<p dir="ltr">“Eu acho que do ano passado para cá a gente tem conseguido acessar alguns lugares para realizar eventos. Alguns lugares estão vinculados ao poder público, mas a gente ainda não tem um apoio de forma sistematizada. No geral, a Ballroom é um movimento que tem uma relação muito forte com a UFBA. A primeira ball aconteceu aqui, a cena, os primeiros treinos aconteceram aqui e até hoje existe essa relação muito forte, principalmente porque tem muitas pessoas que são da universidade que estão na cena. Mas é uma relação de ocupação.”</p>
</blockquote>
<p dir="ltr">Para além do financeiro, Júpiter afirma que é sobre a valorização do trabalho feito dentro desse movimento. Indo além, é a possibilidade de expandir e fortalecer meios de fazer projetos, feitos pela Ballroom para a Ballroom.</p>
<blockquote>
<p dir="ltr">“Além de nós termos outras pessoas olhando para a Ballroom, falando sobre a Ballroom, ou se utilizando da simbologia e de toda problemática que isso carrega, mas que possa ser a gente falando sobre a gente, carregando as nossas questões, as nossas demandas e quem nós somos.”</p>
</blockquote>
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		<title>Ataques a reuniões on-line são a nova expressão da força bruta bolsonarista</title>
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		<pubDate>Tue, 29 Sep 2020 01:15:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pesquisador</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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		<description><![CDATA[Todo domingo final de tarde, um grupo de artistas, intelectuais, professores, ativistas da cultura se reúnem voluntariamente para trabalhar pela cultura brasileira. E isso incomodou os fascistas]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O ataque das reuniões on-line por uma série de perfis falsos é a mais nova subversão da razão pela força bruta bolsonarista. Subversão da razão, do uso da palavra, da informação. No domingo, dia 06 de setembro de 2020, esta horda fascista se sentiu mobilizada para caotizar uma reunião em que estava prevista a palestra “O lugar dos povos indígenas nas políticas culturais do Brasil“, pelo professor universitário, doutor em literatura, reconhecido estudioso das línguas e culturas indígenas, José Bessa Freire. A reunião foi a quinta da série Estados Gerais da Cultura, idealizada pelo renomado cineasta Silvio Tendler – o cineasta dos vencidos – com o objetivo de discutir estratégias de resistência ao desmonte da cultura pelo governo vigente. Nesta reunião, participam há cinco semanas pesquisadores, artistas, professores, intelectuais, ativistas da cultura. E isto incomodou os fascistas!</p>
<p style="text-align: center;">
<div id="attachment_26702" class="wp-caption aligncenter" style="width: 412px"><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2020/09/fakeperfil.jpg"><img class="size-full wp-image-26702   " title="fakeperfil" src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2020/09/fakeperfil.jpg" alt="" width="402" height="267" /></a><p class="wp-caption-text">Ataques por perfis bolsonaristas: subversão da razão, do uso da palavra, da informação.</p></div>
<p style="text-align: center;">
<p>A palavra, os argumentos, diria Platão, permitem o esclarecimento, a possibilidade de chegar à verdade. Os sofistas, embora não tão confiantes na possibilidade de uma verdade absoluta, defendiam o uso da retórica como estratégia de poder. Desde a defesa grega da retórica e o que dela herdamos através da sociedade greco-romana, a palavra é vista como forma de elevar a sociabilidade humana. Toda ideia de liberalismo e república se funda neste princípio. A palavra não é usada pela sua capacidade de elevar o volume, quando nas instâncias democráticas em que se buscam soluções para os problemas sociais. Ela é usada pela sua capacidade de expressar razoabilidade, de convencer pela potência das ideias, dos argumentos. As sociedades africanas das quais herdamos outro tanto da nossa sociabilidade tinham na palavra e na musicalidade formas de expressar uma complexa filosofia e cosmologia, caminhos para construir o bem-estar da comunidade. As sociedades indígenas das Américas em toda sua diversidade iam na mesma direção.</p>
<p>Tantos idiomas, tão complexos. E diante de uma herança tão rica, esta leva de ignóbeis utiliza apenas a possibilidade de calar. Não há outro nome para descrevê-los senão a barbárie. São pedras atiradas contra a possibilidade da razão. As tropas defensoras do atual presidente não entram para questionar, para apresentar argumentos e debater suas ideias. Elas entram transformando a palavra em força. Para inviabilizar a comunicação das pessoas que estão genuinamente na reunião, inserem no chat mensagens imensas com xingamentos, desenhos, caveiras, e odes ao (anti)mito deles. E, seguindo o exemplo de seu ídolo, exuberam na mediocridade. Músicas de letras sexualizadas são colocadas ao mesmo tempo em que no chat dizem que “ideologia de gênero é a perversão da pessoa humana por defender sexo com todos“. Trechos de games (jogos) violentos e o presidente fazendo arminha são alguns dos temas apresentados na tela durante a invasão. Ruídos a toda altura impedem a comunicação dos participantes legítimos. Em outra reunião em que presenciei um ataque, eles inseriram sons escatológicos.</p>
<p>Não satisfeita em tentar subverter os fatos com suas fake news, a horda bolsonarista quer agora subverter a própria possibilidade de comunicação, o espaço acústico e visual em que se expressa a palavra. Eles não querem discutir ideias, querem exatamente impedir este ato pela força bruta; querem silenciar o diálogo, a própria possibilidade de cultura. É a arma empunhada na direção de García Lorca, é a fogueira à espera de Galileu. A diferença é que não mostram a cara. Os perfis são obviamente falsos.</p>
<p>Estes ataques precisam ser investigados, assim como as fake news estão sendo. É preciso investigar se há dinheiro PÚBLICO financiando estes ataques ao direito democrático de debate aberto e franco. É preciso investigar quais as empresas que financiam estes ataques e criminalizá-las. O silenciamento da palavra pela força bruta é a nova estratégia eleitoral bolsonarista e ameaça o que resta de democrático nas eleições de 2022.</p>
<p>Teóricos da comunicação, entusiastas das tecnologias em redes, quem nos convenceria um tempo atrás que democratizar a comunicação era popularizar a barbárie?</p>
<p>Apesar da tentativa fascista de impossibilitar o encontro, ele ocorreu (com algum atraso) pelo Youtube. Ao ver e ouvir a Sabah Moraes com sua bela voz e interpretação melodiando a cultura popular brasileira ficou a certeza de que a onda fascista não é capaz de matar a poesia. Resistiremos pela beleza e pela razão!</p>
<p>Veja aqui o registro do encontro:<br />
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="425" height="350" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/XQB10d_u8Q0" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="425" height="350" src="http://www.youtube.com/v/XQB10d_u8Q0"></embed></object><br />
<em>*Joana Brandão é jornalista e integrante da Liga Latino-americana de Irredentos.</em></p>
<p><em>** Artigo originalmente publicado no Blog Núcleo dos Irredentos<br />
</em></p>
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		<title>Fé em Deus versus ciência: a nova dicotomia quatrocentista do Brasil</title>
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		<pubDate>Tue, 16 Jun 2020 15:30:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pesquisador</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Noticias]]></category>
		<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<category><![CDATA[Últimas Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[Covid-19]]></category>
		<category><![CDATA[cronicas do fim do mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Joana Bandão]]></category>

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		<description><![CDATA[Existe realmente uma rivalidade entre fé na Ciência  e fé em Deus? É sobre essa dicotomia que a jornalista e professora universitária, Joana Brandão, fala no texto da semana. Confira! ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A cena é cotidiana. Saio de casa para deixar o lixo em uma portinhola que fica do lado externo do condomínio. Ato que não faço sem uma dose imensa de culpa por não ter assistido aquele vídeo que ensina a fazer compostagem com galões de água mineral (até arrumei os galões e jazem inertes no canto da cozinha), e ter que enviar aquela mistura que contém o lixo orgânico, papel higiênico e recicláveis &#8211; que eu separo e limpo, mas que por falta de uma coleta seletiva coloco junto com o lixo comum. Soma-se a isso a fralda de plástico que o <em>Petshop</em> tem como única opção para receber as necessidades da cachorrinha de 30 cm que temos em casa e que é recorde em produção de lixo não reciclável.</p>
<p>Este pacote de contradição segue seu caminho ao lixo, quando encontra uma outra pessoa na mesma direção. Esforço-me por manter a distância de dois metros, estamos ambas desmascaradas. Ela avante, abre a porta e, ao perceber que aguardo parada a uns três metros dela: &#8211; Ah, você está com medo!</p>
<p>Eu tento esboçar alguma resposta formal sobre a importância de nos prevenirmos, sobre não ser algo pessoal, sobre assintomáticos contaminarem e, antes que eu possa tomar algum ar, ela emenda: &#8211; Tenha fé em Deus minha filha. Ele é maior.</p>
<p>Meu alerta terraplanismo é aceso e minha paciência vai para parâmetros moleculares: &#8211; Por acaso, se a senhora ou alguém de sua família se acidentar, vocês irão ao hospital ou a uma igreja? Pois bem, eu tenho fé na ciência e na medicina também.</p>
<p>Vem um milhão de coisas na cabeça e falta-me paciência para elaborar um sermão. De qualquer forma nem adiantaria muito o esforço, já que a vizinha passou na frente olhando para mim como se eu fosse a pessoa mais mal educada que atravessou o seu dia. Será que expor alguém à possibilidade de contaminação devido ao seu próprio ato de fé, à religião de sua escolha e à sua interpretação dessa religião, não é um ato de falta de educação maior? Penso o quanto precisamos pensar em ética no nosso cotidiano. A ética de cuidado do outro, da nossa coletividade, independente de nossas escolhas individuais.</p>
<p>Penso em mais um monte de coisa. Sobre a visão de Deus como um ser paternal que fará tudo por nós. Veja bem, já diziam os muçulmanos: &#8220;Confie em Alá, mas amarre seu camelo primeiro, porque Alá não tem outras mãos a não ser as suas&#8221;. E dizem por aí que eles que são fanáticos. Afinal, o Criador fez o homem a sua imagem e semelhança para delegar alguma tarefa, não? Ou seria apenas para vagarmos, ou melhor, vagabundearmos, excluídos do paraíso, sem nenhuma capacidade de discernimento e auto-cuidado, a não ser pedir a Deus um taco de misericórdia?</p>
<p>Para não me aventurar mais pela teologia, vamos aos elementos pragmáticos. Será que não morreu nenhum cristão nesta pandemia? Claro que morreu, recentemente foi noticiado a morte de uma cantora gospel assim como de policiais e este e aquele seguidor da ideia de não isolamento que se contaminou e não resistiu. Então, não é bem a fé que nos resguarda.</p>
<p>Ou será que estes cristãos que se contaminaram teriam tido pouca fé em Deus? Em qual balança se mede a fé de alguém? Lembro-me eu criança, na igreja, a ouvir o padre dizendo: &#8211; Cristão frio não serve para Deus, Deus quer quente, morno ele vomita. Na minha cabeça infantil, vinha a imagem repulsiva de Deus vomitando a mim ou a qualquer um daqueles prostrados em um domingo a tarde, que tinham saído de sua casa com tanta boa vontade para escutar que seriam vomitados pelo senhor se a fé não passasse no teste do termômetro.</p>
<p>Fico pensando nesta visão tacanha de um Deus que olha para nosso espirito, mas não olha para as complexidades dos nossos atos cotidianos. Não é um ato de ofensa com a criação divina este conglomerado com nossos restos que jogamos dentro de um saco e lançamos em uma portinhola, fechando-a, como se não nos dissesse respeito? Como se não fosse o mundo em que habitamos, em que habitam nossos irmãos e os belos animais de quem nos comprazemos em cantos e imagens, que fossem consumir microplásticos por toda eternidade.</p>
<p>Penso em um artigo do Drauzio Varela que me deu um tapa na cara há alguns anos quando eu estava a avaliar se iria vacinar minha filha ou não. Chamava-se “<a href="https://drauziovarella.uol.com.br/drauzio/artigos/sabios-antivacinais-artigo/" target="_blank">Os sábios antivacinais</a>”. Nele, Drauzio (desculpe a intimidade de usar o primeiro nome, é que o duplo “L” do sobrenome não afasta a lembrança do sensacionalismo policialesco de jornais que se espremer sai sangue aqui pela Bahia), ironiza as contradições e prepotência dos antivacinais. Pessoas que defendem entusiasticamente a amamentação exclusiva até seis meses e prolongada até dois anos e citam a Organização Mundial da Saúde quando convém para fundamentar seus argumentos, mas ao bel-prazer, com base em pesquisas de procedência duvidosa, acham que as vacinas não são tão boas assim. E eu mesma, quando fui ler as pesquisas partilhadas em um destes grupos secretos no Facebook sobre o mal que as vacinas fazem, fiquei horrorizada com a má qualidade da escrita e a incapacidade de aqueles artigos sequer apresentarem uma formatação razoável. Fiquei envergonhada por ter considerado a possibilidade de ser uma seguidora daquela seita antivacinal e por ter colocado a saúde da minha filha em risco devido à minha ignorância.</p>
<p>Neste ponto, é importante dizer que uma das vaidades que aprendi a cultuar nesta vida é a intelectual. Percebi de forma mais notória isso um dia na praia, abrigada sob três guarda-sóis em uma tempestade de ventos e chuva, junto com uma passante que, ao ver minha filha entretida com algo tipo lacinhos, falou: &#8211; É importante incentivar, uma mulher tem que ser vaidosa. E quase escapou da minha boca: &#8211; Realmente uma mulher tem que ser vaidosa, intelectualmente, para não sair por aí falando besteira. Como não sabia quanto tempo a chuva ia durar, e era domingo, e a gente estava tentando ter um dia <em>relax</em> na praia, guardei para mim o comentário.</p>
<p>Mas a mensagem vale para os dias de hoje: é feio sair por aí falando besteira. Causa vergonha alheia, e, pior ainda, mata! Sua ignorância mata. Pois não há testes, não há respiradores e leitos de UTI o suficiente, não há relaxantes musculares para colocar os respiradores que existem, os profissionais de saúde estão exaustos e adoecendo, se arriscando por sua ignorância. <a href="https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,nova-zelandia-zera-casos-do-novo-coronavirus-e-anuncia-reabertura-do-pais,70003328089" target="_blank">Enquanto vemos a Nova Zelândia dizer que não há casos ativos em seu território</a>, nós, aqui no Brasil, por essas e outras, subimos ladeira acima nos gráficos e ladeira abaixo na decência e respeito às vidas.</p>
<p>Afinal, para que o Criador nos Deu-s a capacidade de produzir ciência e medicina? Foi lá nos idos anos mil e quatrocentos que os padres, freis e freiras eram os médicos das comunidades. Isso porque não havia medicina nem pesquisa cientifica. Será que voltamos a estes idílicos tempos em que a fé era de fato quente? Assim, em vez de hospitais, pedimos aos governantes que nos construam mais e mais igrejas. Quando o coração der aquela pontada e o braço ficar dormente, quando o açúcar no sangue demandar insulina, quando baterem os carros e motos uns contra os outros em seus cotidianos ungidos pelo Senhor, peçam para serem levados para as igrejas. Quem sabe lá encontrem uma boa sangria esperando por vocês. Com sorte, o material estará esterilizado.</p>
<p><em>*Joana Brandão é jornalista, cineasta e educadora. Sempre sonhou em vivenciar um momento histórico importante para humanidade. Só não pensou que seria agora e trancada na própria casa. Escreve a coluna “Crônicas do fim do mundo” para a Ciência e Cultura sobre implicações socioculturais da pandemia global pelo Covid-19.</em></p>
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		<title>Guerra de comunicação</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Jun 2020 14:29:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pesquisador</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Jornalismo como ponte entre barbárie e civilidade]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tem sido constante e de forma agressiva, brutal, desrespeitosa, abusiva, violenta, ataques a jornalistas. Somos acusados de comunistas, defensores dos &#8220;tais direitos humanos&#8221; &#8211; acredite, defender direito virou defeito- , imagine que investigar, correr atrás de fatos que comprovem problemas sérios, como desigualdade, virou besteira porque &#8220;o mundo sempre foi e continuará sendo de quem tem poder capital&#8221;; argumentar sobre a necessidade da preservação dos ambientes, como espaço diverso e rico para o bem-viver digno e merecido por cada um, é criticado como sonho idiota, fora da realidade, de quem tem tempo para gastar com o que não vai adiantar nada.</p>
<p>Tem sido ruidosa, nesses ambientes contaminados por política rasa, as conversas sobre, por exemplo, que o papel do jornalismo é vigiar as ameaças entre civilização e barbárie. Que nos cabe, em compromisso de oficio, estar atentos ao que podemos empoderar e enfraquecer, em cenário de fortes e frequentes ameaças à vida. Que dentro dos infinitos olhares, audições, percepções, comparações, todas as informações contribuem para formar múltiplas dimensões do pensar e do agir. Que nossa missão maior é estar a serviço do fortalecimento da Democracia, de sistemas políticos sociais onde o respeito à diversidade de opinião seja instrumento contra regimes onde o autoritarismo, a falta de conhecimento, a negação dos fatos como realidade, podem reforçar atitudes nefastas, desumanas, incivilizadas, inapropriadas a legados históricos de lutas por direitos dignos, como liberdade!</p>
<p>Tem aumentado, diariamente, os casos de perseguição e atentados e violências contra jornalistas, ativistas, ambientalistas, educadores que pautam seus trabalhos, mesmo como voluntários livres na defesa de culturas de povos em comunidades tradicionais como indígenas, quilombolas, agricultores familiares, pescadores, artesãos.</p>
<p>Tentar conversar, por exemplo, sobre problemas sérios, em contextos socioambientais, causados pelo agronegócio, grandes espaços de terras ocupados de forma descuidadosa, plantações de monoculturas envenenadas em produção de larga escala, identificar os nós do mercado de <em>commodities</em> que alimenta um modelo de Economia predatória, mostrar que determinadas formas domésticas de desperdício de alimentos e um sem número de produtos, largados, descuidados, descartados sem critérios de valor, não deveria mais caber num mundo onde a fome, a desnutrição, as doenças, a falta, a desigualdade, a pobreza e o desrespeito a direitos, são pautas permanentes (como as ODS), num mundo alheio ao outro.</p>
<p>Esses temas tem sido inconversáveis em ambientes de resistência às mudanças. E, quando publicados, num ambiente poderoso com guerra de comunicação, observamos que a leitura é rasa, não atenta, sem olhar contextualizado, linkado ao cenário de um planeta que pede socorro para se sustentar como ambiente da vida que, paradoxalmente, precisamos, mas não cuidamos.</p>
<p>Nesse tempo de pandemia, com um reinado de muita dor, provocado pelo Coronavírus, são tantos os recados, os alertas, os sinais de como ainda temos a chance de tentar reverter os males que estamos causando uns aos outros. De como podemos fazer do trabalho, do labor, um prazer em construir os ambientes de vida; do estar em casa, com a família, um direito sagrado de compartilhar amor, experiências, conhecimento, alegria; do pensar sobre a diferença entre necessitar e desejar a ponte que pode nos levar ao equilíbrio que muito nos faz falta quando os recursos financeiros se limitam como insuficientes.</p>
<p>Já foi provado que tudo que fazemos tem a ver com os resultados que tem nos atingido, em cheio, em xeque, em vida, em morte, feia, agonizante. Quando penso numa pessoa, em leito de hospital, em agonia para tentar buscar ar, e não consegue, e precisa ser entubado, e na luta, acaba vencido pelo inimigo, invisível, concluo o quanto ainda estamos distantes do que poderia nos referenciar como<em> sapien</em>! Somos mesmo frágeis, tolos, diante de tanta impotência para reescrevermos a História como protagonistas de um tempo e espaço, ínfimos, perante ao Universo que tentamos, há milênios, compreender e atuar!</p>
<div id="attachment_26636" class="wp-caption aligncenter" style="width: 458px"><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2020/06/liliana.jpg"><img class="size-large wp-image-26636 " title="liliana" src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2020/06/liliana-768x1024.jpg" alt="" width="448" height="597" /></a><p class="wp-caption-text">Jornalista fala do aumento da violência contra jornalista no momento atual./ Foto: Arquivo pessoal</p></div>
<p><em>*Liliana Peixinho jornalista, especializada em Jornalismo Científico, Meio Ambiente, Sustentabilidade, Cultura. Autora do livro, em pílulas virtuais desde 1999 &#8211; &#8220;Por um Brasil Limpo&#8221;! Defende e pratica o Jornalismo Imersivo; Produtora de diversas séries de reportagens com imersões jornalísticas em comunidades tradicionais como indígenas, quilombolas, agricultores familiares, pescadores, artesãos! Fundadora, produtora, editora de conteúdos: Movimento AMA, Reaja, Mídia Orgânica, RAMA.</em></p>
<p><em> </em></p>
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		<title>Brasil infantil! Marcha soldado, cabeça de papel…</title>
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		<pubDate>Wed, 27 May 2020 15:01:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pesquisador</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Novos versos, velhas histórias em um país que mergulha dos pés à cabeça na pandemia. Dia após dias, vemos as estatísticas piorarem, enquanto medidas de combate e prevenção se mostram incertas, como se fosse possível titubear quando se trata de salvar vidas]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Barulho de criança parece até um calmante em meio ao barulho das notícias na cabeça. Uma canção ecoa dia a fora: “Marcha soldado, cabeça de papel…”. A marchinha tem sido a predileta nos últimos dias aqui em casa. Ao fim, no ânimo de torcida de Copa do Mundo, um verso inventado: Brasil infantil! Brasil infantil!</p>
<p>Vocábulo novo: Brasil. O infantil vem com um tom de carinho e diversão. No mundo paralelo da infância, o Brasil é ainda algo poético. Eu cá, com o lado direito e esquerdo do cérebro nas notícias, não entendo mais o que é Brasil nem como nutrir carinho por essa nação. O infantil parece uma ironia cruel, com todo sentido de imaturidade e irresponsabilidade que a palavra tem quando aplicada a contextos adultos.</p>
<p>Eu não conheço a história da marchinha, nem lembro de a ter ensinado para minha filha. Fico pensando quais caminhos levaram uma canção de sentido militar a ser música infantil e como cada verso desta canção compõe a narrativa trágica de nossa situação atual enquanto nação, enquanto povo.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2020/05/Marcha-Soldado.png"><img class="aligncenter size-full wp-image-26672" title="Imagem: Giovanna Hemerly" src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2020/05/Marcha-Soldado.png" alt="" width="599" height="373" /></a></p>
<p><strong>Marcha soldado, cabeça de papel…</strong></p>
<p><strong></strong>No Brasil, hoje, todos somos cabeça de papel. Nossa cidadania e nossa dignidade valem muito pouco para um governo que, diante da pior pandemia no último século, não segue nenhuma das recomendações da Organização Mundial de Saúde: não faz teste em massa nem incentiva o isolamento social.</p>
<p>Estamos todos expostos não apenas ao vírus, mas a um Estado que não preza por nossas vidas. Somos parte de um experimento, de uma tecnologia social do “e daí?”. E daí se estão morrendo milhares? E daí se poderíamos prevenir? Enquanto o governo nega a importância das ciências sociais e humanas em seus planos de financiamento da ciência, exerce experimento social genocida sobre a população.</p>
<p><strong>Quem não marchar direito, vai preso no quartel…</strong></p>
<p>O quartel sempre esteve ali na esquina, de portas abertas. A Comissão da Verdade para apurar os crimes da ditadura militar foi criada apenas em 2011, 26 anos depois do fim da ditadura. Não muito depois, em 2016, em pleno Congresso Nacional, foi feita impunemente uma ode a um torturador militar.</p>
<p>É, em tão pouco tempo, reviramos os túmulos da história: 35 anos após o fim de uma ditadura de 21 anos, temos o governo mais militar que o primeiro governo da própria ditadura. Militares estão em ministérios, secretarias, gabinetes, no Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO), na Fundação Nacional do Índio (Funai) e no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).</p>
<p style="text-align: center;">
<div id="attachment_26674" class="wp-caption aligncenter" style="width: 609px"><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2020/05/Marcha-Soldado-sombras1.png"><img class="size-full wp-image-26674 " title="Imagem: Giovanna Hemerly" src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2020/05/Marcha-Soldado-sombras1.png" alt="" width="599" height="373" /></a><p class="wp-caption-text">Imagem: Giovanna Hemerly</p></div>
<p>Mesmo com tanto verde e amarelo por aí, é difícil marchar direito e ter orgulho de um país que faz tão pouco contra o racismo estrutural que pratica, que nega a necessidade de direitos humanos quando nunca os teve de verdade, que acha que projeto social para reduzir desigualdade é comunismo, que idolatra países do norte global mas recusa implementar as mesmas medidas que estes países aplicam para garantir direitos básicos aos seus cidadãos. O brasileiro acha que, para se tornar um país de primeiro o mundo, basta ter um governo dizendo que empregada doméstica não pode ir a Miami.</p>
<p>Recorde de mais de 1000 mortos por dia. Mortes evitáveis, ressaltemos. China preveniu, Nova Zelândia, Alemanha… O que esses países têm em comum? Um governo que prezou e preza pela vida de seu povo; um governo que, desde o princípio, levou a sério os alertas científicos sobre a gravidade da doença e empreendeu as medidas comprovadamente eficazes de isolamento e testagem em massa. Por aqui, acredita-se na força, no grito, no cala a boca, em milícias, em armas no campo, em fogo na floresta, em veneno na terra e na mesa, mas não acreditamos na ciência, nem damos sequer um centavo pela nossa riqueza humana e cultural.</p>
<p><strong>O quartel pegou fogo…</strong></p>
<p>No Rio de Janeiro, a fila de espera por leitos é de mais de 1000 pessoas. Muitos estados do Brasil estão com lotação de leitos acima de 70%, Ceará e Pernambuco já estão com lotação praticamente máxima (98%), ou seja, sistema de saúde em colapso. O país, que no começo de abril era o 13º, o primeiro na lista de países com mais mortes por COVID-19 no mundo, saltou para o sexto lugar no começo de maio, ultrapassando a faixa das 20 mil mortes e já é o segundo país com mais número de casos.</p>
<p>A diferença é que, segundo dados do site Worldmeter, testamos menos do que os países que estão na nossa frente neste pódio infeliz (Estados Unidos, Itália, Espanha, França, Reino Unidos). A testagem, diga-se de passagem, é a principal medida recomendada pela Organização Mundial de Saúde para pautar governos em ações de prevenção e combate à doença e tem relação direta com a redução de mortes e número de casos da doença.<br />
Em resumo, estamos em uma guerra sem general, sem munição e sem combatentes. O general seria uma governança eficaz. Munição: testes e leitos necessários para atender a demanda. E combatentes os profissionais de saúde. Mas o Brasil já tem aproximadamente 15 mil enfermeiros afastados por COVID-19 e é o país em que mais morrem profissionais de enfermagem na linha de frente do combate à COVID-19, segundo dados do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen).</p>
<p style="text-align: center;">
<div id="attachment_26675" class="wp-caption aligncenter" style="width: 416px"><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2020/05/Marcha-Soldado-SAM.png"><img class="size-full wp-image-26675 " title="Imagem: Giovanna Hemerly" src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2020/05/Marcha-Soldado-SAM.png" alt="" width="406" height="470" /></a><p class="wp-caption-text">Imagem: Giovanna Hemerly</p></div>
<p><strong>Acode a Bandeira Nacional…</strong></p>
<p>Nossa pátria caminha para ser o epicentro da doença no mundo, e já o é na América Latina. Os Estados Unidos já estão a pagar caro pelo custo de ter um presidente que recomenda aos seus cidadãos injetar desinfetante contra a doença. Ao que tudo indica, a reação dos países a esta pandemia aponta para uma nova divisão de poderes na geopolítica global.</p>
<p>Um país que desacredita a ciência, que transforma política internacional em bate-boca de botequim &#8211; que o diga os comentários xenófobos publicados pelo filho do presidente e pelo Ministro da Educação, respondidos com seriedade pela diplomacia chinesa no Brasil, não é respeitado. Nosso soft power não vai ser garantido pelo futebol e Paulo Coelho &#8211; duas das coisas mais mencionadas quando se diz que é brasileiro mundo a fora. É preciso mais do que isso para ter algum prestígio político e econômico globalmente.</p>
<p><strong>A espera do sinal de São Francisco! </strong></p>
<p>É o que nos resta, uma vez que &#8211; para nosso azar &#8211; o bom senso, a razoabilidade e elegância estão todos de quarentena no Brasil. Nossa esperança, machucada, segue sua dança equilibrista. Em última instância, persiste a fé na antítese e na história. Ah, obviamente, como nordestino que somos, também em São Francisco que, no sincretismo com a religião afrobrasileira, é uma expressão de Xangô, orixá da Justiça.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2020/05/Contra-capa-coluna1.png"><img class="aligncenter size-full wp-image-26676" title="Contra-capa-coluna1" src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2020/05/Contra-capa-coluna1.png" alt="" width="599" height="373" /></a></p>
<p><em>*Joana Brandão é jornalista, cineasta e educadora. Sempre sonhou em vivenciar um momento histórico importante para humanidade. Só não pensou que seria agora e trancada na própria casa. Escreve a coluna “Crônicas do fim do mundo” para a Ciência e Cultura sobre implicações socioculturais da pandemia global pelo Covid-19.</em></p>
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		<title>Querida, me tranquei com as crianças!</title>
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		<pubDate>Tue, 21 Apr 2020 17:44:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pesquisador</dc:creator>
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		<category><![CDATA[JOANA BRANDÃO]]></category>
		<category><![CDATA[QUARENTENA]]></category>

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		<description><![CDATA[Ficar em quarentena com crianças nos faz refletir sobre os sentidos do cuidar em nosso cotidiano. E, ao que tudo indica, valores como cuidado e empatia farão parte de nossas vidas pós-COVID19]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div>
<p>Quem assistiu “Sessão da tarde” nos anos 1990 certamente viu os filmes “Querida, encolhi as crianças” e “Querida, estiquei o bebê”. No primeiro, o pai, inventor desastrado, acaba encolhendo os filhos acidentalmente em uma de suas descobertas para um tamanho menor do que de formigas e os perde no jardim da casa. No segundo filme da série, ele transforma o bebê de dois anos, com toda sua potência destrutiva, em um gigante.</p>
</div>
<div>
<p>Eu não gosto de reproduzir essa normalização de pais desastrados que, em geral, traz subentendida a ideia de que as mulheres têm um alento inato para lidar com crianças e que os homens não são naturalmente tão bons assim. Como se, nós, mulheres, tivéssemos capacidades mágicas que nos fizessem trocar fraldas ou preparar mamadeiras praticamente de olhos fechados, puramente com a intuição, e não por exercícios de pensamento lógico e esforço que partem exclusivamente da necessidade.</p>
</div>
<div>
<p>Apesar de este luxo (leia-se privilégio de gênero/classe) do pai desajeitado estar na essência do enredo destes filmes,  não consigo achar uma forma melhor de descrever o momento atual. Creio que estamos vivendo, na própria pele, o terceiro número da série e ele se chama: &#8220;Querida, me tranquei com as crianças!”.</p>
<p style="text-align: center;">
<div id="attachment_26573" class="wp-caption aligncenter" style="width: 609px"><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2020/04/Q-Capa-1-.png"><img class="size-full wp-image-26573 " title="Capa" src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2020/04/Q-Capa-1-.png" alt="" width="599" height="373" /></a><p class="wp-caption-text">Imagem: Giovanna Hemerly</p></div>
</div>
<div>
<p>Quem é cuidador(a) de criança e está entre paredes com estes seres energizados sabe muito bem que a tarefa é das mais desafiadoras. Por aqui em casa, às 11 horas da noite, depois de 14 horas de brincadeiras ininterruptas que envolvem intermináveis encenações teatrais, acrobacias como cabriolas e ficar de cabeça para baixo incontáveis vezes por dia, é comum ouvir : “Mamãe, eu não quero dormir, dormir é chato. A gente não faz nada quando dorme”. Depois disso, metade de mim é cansaço e a outra metade é vontade de ter esta disposição. Com meu torcicolo e lombalgia cotidianos, resta-me ver o rebento ficar com pernas para o ar nas diversas superfícies da casa &#8211; sofá, cama, chão…e torcer para que o sofá, ela e todos nós saiamos inteiros desta quarentena.</p>
</div>
<div>
<p>Enfim, a parentalidade é algo realmente desafiador e, nestes tempos de pandemia, como tudo, este desafio se potencializou. A máxima: “é preciso uma aldeia para cuidar de uma criança” é sentida mais do que nunca. Mesmo que em nossa sociedade contemporânea tenhamos capitalizado a aldeia, no fim, a realidade é só uma: as necessidades de um ser humano em formação são imensas e diversas e demandam trabalho coletivo. E nestes tempos de quarentena, a aldeia não pode mais ser capitalizada. Não tem escola, babá, natação, musicalização, etc. Somos nós com nossos filhos dentro de casa. E esse nós, muitas vezes, é feminino.</p>
<p style="text-align: center;">
<div id="attachment_26574" class="wp-caption aligncenter" style="width: 609px"><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2020/04/monalisa-atarefada.png"><img class="size-full wp-image-26574     " title="monalisa-atarefada" src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2020/04/monalisa-atarefada.png" alt="" width="599" height="373" /></a><p class="wp-caption-text">Papéis sociais pré-estabelecidos por uma sociedade sexista patriarcal ainda sobrecarregam e limitam a mulher contemporânea / Imagem: Giovanna Hemerly</p></div>
</div>
<div>
<p>As mulheres têm sofisticado e passado adiante a tecnologia do cuidado desde tempos ancestrais, como nos diz o<a href="https://www.youtube.com/watch?v=XcKx-uE4xrw" target="_blank"> ecofeminismo</a>, não porque somos naturalmente destinadas a isso, mas porque socialmente nos é resguardado este lugar, e acabamos por aprender e entender desde cedo os sentidos do olhar, cuidar e pensar no outro, enfim, o exercício da empatia. Cuidamos do outro muitas vezes às custas de nosso próprio autocuidado, de nossos sonhos e planos. E talvez seja devido ao valor social deste exercício contínuo de empatia que<a href="https://www.forbes.com/sites/tomaspremuzic/2020/04/10/are-female-leaders-better-at-managing-the-covid19-pandemic/#50c69b1a28d4" target="_blank"> os países que estão atravessando a pandemia de forma menos danosa sejam aqueles geridos por mulheres</a>.</p>
</div>
<div>
<p>Assim, buscando ser um pouco útil neste momento em que o cuidado se faz tão necessário, dedico as próximas linhas para escrever dois manuais de sobrevivência com crianças na quarentena. Neles, partilho algumas dicas de coisas que têm funcionado aqui em casa com uma criança de quatro anos. Espero que ajude! Vocês encontrarão duas versões, e peço que façam um exercício de empatia de ler as duas. Se você não tem filho pequeno em casa, pule direto para segunda versão. Voilà!</p>
</div>
<div style="text-align: center;">
<p><strong>Versão 1<br />
</strong></p>
<p><strong><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2020/04/Artboard-21.png"><img class="aligncenter size-large wp-image-26575" title="Artboard " src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2020/04/Artboard-21-1024x455.png" alt="" width="640" height="284" /></a><strong>Manual para sobrevivência na quarentena com crianças<br />
</strong><strong> (para famílias com comida na despensa)</strong></strong></p>
</div>
<p>Se você tiver o que dar de comer para suas crianças, tiver celular ou computador com acesso a internet em casa,  então este manual pode ser útil para você.  Ainda assim recomendo a leitura da segunda versão, sua leitura pode ser útil para outras famílias.</p>
<p><span style="font-size: 16px;">1 &#8211; Desista dos seus planos de produtividade! Lembre-se que<a href="https://medium.com/@rntpincelli/quarentena-porque-vc-deveria-ignorar-toda-a-pressao-para-ser-produtivo-agora-3f4f0b8378ae   " target="_blank"> em tempos de calamidade o mais importante é permanecer vivo e em segurança</a>. Se você precisar de inspiração, vá no Instagram de Paula Lavigne e veja Caetano Veloso comendo paçoquinha na paz de odara!</span></p>
<p><span style="font-size: 16px;">2 -Lembre a criança que a quarentena vai acabar e faça planos! A saudade dos parentes e amigos pode ser ressignificada se você lembrar as crianças que vocês vão reencontrar os amigos em passeios no parque, na praia, no shopping. As crianças vão lembrar com alegria desses planos quando a quarentena acabar &#8211; e um dia ela vai!</span></p>
<p><span style="font-size: 16px;">3 &#8211; Manuais na internet podem ser muito mais que abas abertas em seu celular e computador. Alguns podem ser de fato úteis! Sem muitas cobranças, se arrisque a ler e aplicar alguns deles no cotidiano. Desde de<a href="https://www.youtube.com/channel/UCLdKs4J6gNnFq7838a3SIpw" target="_blank"> dinâmicas de teatro com crianças</a>, a como fazer massinha com farinha de trigo, há varias dicas que podem render programas divertidos entre quatro paredes.</span></p>
<p><span style="font-size: 16px;">4 &#8211; </span><span style="font-size: 16px;">Recicle! </span><span style="font-size: 16px;">As crianças vão se cansar de seus brinquedos e provavelmente vão reciclar alguns elas mesmas depois de quebrá-los, e nesta quarentena haverá oportunidade e energia para quebrar muitos. Então, aprenda a lição e se volte para fonte interminável de brinquedos que você produz todo dia em casa: seu lixo reciclável. Embalagens de café, biscoitos, garrafas pet, rolos de papel higiênico e de papel toalha, caixa de ovos são matérias-primas fantásticas para várias artes. Você verá que dá para fazer muita coisa sem precisar ter uma papelaria em casa!</span></p>
<p><span style="font-size: 16px;">5 &#8211; Assista filmes com as crianças! Se você normalmente controla o tempo na tela, na quarentena este controle irá se relaxar um pouco. Não morra de culpa por isso, e aproveite para ver filmes infantis junto com a prole! Desenhos animados podem ser relaxantes e alguns ainda possuem belas mensagens. Além de tudo, é uma ótima maneira de incentivar a criança a ver aquele desenho mais didático que você tenta convencê-la a tempos a ver sem sucesso!</span></p>
<p><span style="font-size: 16px;">6 &#8211; Cozinhem juntos! Integrar as crianças nas atividades da casa nem sempre é possível. Mas, de longe, cozinhar é a atividade preferida delas. Faz uma meleira, mas é educativo e sensorial. Pode até dar um empurrãozinho para as crianças provarem novos sabores. Coloca essas mãozinhas para amassar o pão!</span></p>
<p><span style="font-size: 16px;">7 &#8211; Plantem! Pode ser feijão, uma muda de alho ou de manjericão, pode ser batata, cenoura ou cebola! Maior parte da comida em sua geladeira pode virar uma planta! Se não tiver terra, coloque a muda na água em uma garrafa vazia e espere a raiz sair. Serão cinco minutos de distração todo dia conversando com as mudinhas. Qualquer minuto de tranquilidade vale ouro nestas condições!</span></p>
<p><span style="font-size: 16px;">8 &#8211; E, por último, mas não menos importante, aprenda com as crianças a aproveitar o momento! Embora elas possam estar estressadas com o que está acontecendo e até ter incorporando o vocábulo “coronavírus&#8221; em suas brincadeiras, certamente não estão preocupadas com o futuro do país, da humanidade, nem quando, como e se o mundo voltará a ser como antes. As crianças têm habilidade nata de ressignificar experiências e de viver o presente. Então aproveite a companhia delas como a melhor terapia neste período de incertezas. Elas produzem pílulas de sabedoria no meio de um mar de gritaria e bagunça!</span></p>
<div style="text-align: center;">
<p><strong>Versão 2</strong></p>
<p><strong><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2020/04/Artboard-12.png"><img class="aligncenter size-large wp-image-26576" title="Artboard " src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2020/04/Artboard-12-1024x455.png" alt="" width="640" height="284" /></a><br />
</strong><strong>Manual para sobrevivência na quarentena com crianças<br />
</strong><strong>(para famílias com comida na despensa)</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong> </strong></p>
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<p>Se você não tiver o que dar de comer para suas crianças, não tiver celular ou computador com acesso a internet em casa, então provavelmente você não estará lendo este texto.  E realmente eu não saberia o que escrever para você. Eu não tenho a mínima ideia do que dizer para alguém que está com um filho passando fome em casa. Meu conhecimento, minha educação, minhas palavras sofisticadas de nada servem para aplacar um injustiça desta proporção. Portanto eu falo para você, que tem comida na despensa, e pode fazer algo por quem não tem e não está lendo este texto.</p>
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<p>Nenhuma mãe deveria jamais ver um filho sentir fome. Em uma terra que &#8220;em se plantando tudo dá” essa deveria ser nossa máxima. E foi um dia. Lembram do lema “Brasil sem fome”? Ele surtiu efeito e implantamos <a href="https://nacoesunidas.org/programa-bolsa-familia-e-exemplo-de-erradicacao-de-pobreza-afirma-relatorio-da-onu/" target="_blank">uma tecnologia social reconhecida internacionalmente </a>na erradicação da pobreza que <a href="https://nacoesunidas.org/crescimento-da-renda-dos-20-mais-pobres-ajudou-brasil-a-sair-do-mapa-da-fome-diz-onu/" target="_blank">tirou o Brasil do mapa da fome, o Bolsa Família</a>. E esta tecnologia pode ser o caminho das pedras para ajudar as famílias em situação de vulnerabilidade social neste momento de crise.</p>
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<p>Carolina de Jesus, escritora negra, catadora de papel, que criou três filhos sozinha em uma periferia em São Paulo na década de 1950, escreveu em seu livro Quarto de despejo: diário de uma favelada: &#8220;É preciso conhecer a fome para saber descrevê-la (…) A fome também é professora. Quem passa fome aprende a pensar no próximo, e nas crianças”</p>
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<p>Então, se você leu este manual até aqui, provavelmente você, assim como eu, não tem a fome como professora. Mas, ainda assim, pode ter empatia e ajudar quem está com as crianças em casa e não tem farinha de trigo e óleo sobrando na despensa para fazer massinha.</p>
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<p>Diversos projetos sociais estão trabalhando para dar cesta básica para famílias de baixa renda. Procure organizações da sociedade civil do seu bairro, da sua vizinhança, do seu estado, e contribua de alguma forma!</p>
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<p>Se você não sabe quem ajudar, apresento duas organizações que trabalham com povos indígenas. Muitos indígenas dependem da venda de seus artesanatos e outros precisam ir às cidades para vende-los e adquirir suprimentos. Com a pandemia, eles estão impedidos de trabalhar pois têm permanecido nas aldeias para não se contaminarem na cidade.  Os indígenas superam epidemias desde a chegada dos portugueses nestas terras. Vamos apoia-los para superar mais uma. Você pode ajudá-los através destes links:</p>
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<p>1) A Articulação de Povos Indígenas do Brasil está realizando uma<a href="https://www.vakinha.com.br/vaquinha/apoie-os-povos-indigenas" target="_blank"> campanha </a>para arrecadar verbas que serão destinadas para compra de alimentos e remédios para aldeias indígenas.</p>
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<p>2) O Instituto Socioambiental fez uma lista das campanhas realizadas pelos povos indígenas, que pode ser vista <a href="https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/saiba-como-ajudar-indigenas-e-povos-da-floresta-no-combate-ao-coronavirus" target="_blank">aqui</a>!</p>
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<p>Vamos exercer esta tecnologia social feminina ancestral e cuidar uns dos outros. Ao que tudo indica, ao sairmos dessa,<a href="https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/04/mundo-pos-pandemia-tera-valores-feministas-no-vocabulario-comum-diz-antropologa-debora-diniz.shtml" target="_blank"> vamos incorporar valores como cuidado, amparo e empatia em nosso cotidiano</a>. Ao conhecimento ancestral feminino está resguardado o futuro da humanidade.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2020/04/Contra-capa-coluna2.png"><img class="aligncenter size-full wp-image-26578" title="Contra-capa-coluna" src="http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/wp-content/uploads/2020/04/Contra-capa-coluna2.png" alt="" width="629" height="392" /></a></p>
<p><em>*Joana Brandão é jornalista, cineasta e educadora. Sempre sonhou em vivenciar um momento histórico importante para humanidade. Só não pensou que seria agora e trancada na própria casa. Escreve a coluna “Crônicas do fim do mundo” para a Ciência e Cultura sobre implicações socioculturais da pandemia global pelo Covid-19.</em></p>
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		</item>
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